Novos óculos para um novo mundo

Meus amigos,

Esse é o meu primeiro texto escrito exclusivamente para o Medium.com. Confesso que há algumas semanas nem sabia direito o que era isso. Aliás, semanas essas de absoluta inquietação. Sou LOCUTOR ESPORTIVO. Esse é o meu trabalho e o alvo para o qual eu direcionei TODA UMA VIDA de 25 longos anos. Meu sonho era trabalhar na RÁDIO GLOBO. Hoje lá estou. Nem pensava em trabalhar em TV, mas hoje também estou na REDETV! Deveria estar absolutamente satisfeito para quem tem apenas 36 anos. Mas estou inquieto.

Foi tema de minha sessão de terapia (pela segunda vez) os rumos para onde a minha profissão, como comunicador, está tomando. Dezenas de colegas (e amigos) estão no desemprego. Empresas de mídia tradicional estão morrendo aos poucos (até no online). Mas, ao contrário de outros “desabafos facebookianos” que eu já fiz por aí, estou tentando transformar aflição em análise. SE VOCÊ É JORNALISTA, TALVEZ SE IDENTIFIQUE COM O QUE VOU DIZER AQUI.

Quando eu era moleque (anos 90), o rádio e a televisão eram fortíssimos. O dial tinha Osmar Santos, José Silvério e Fiori Gigliotti, que vendiam publicidade à rodo. Osmar tinha equipes espalhadas em três emissoras diferentes em São Paulo (Globo, Gazeta e Record). Era o algo parecido com o que Éder Luiz faz hoje na Transamérica FM. Um vendedor. A TV tinha Galvão Bueno e Luciano do Valle. Tinha Silvio Luiz, Oliveira Andrade, Luis Alfredo. Grandes locutores com ótimos salários. Só lá para a metade da década começava a desembarcar aqui os canais esportivos. Ser um narrador de futebol era virar um ídolo, ficar rico. Eu tinha talento então falei, “Bom. Acho que é por aqui que eu vou”.

Os anos se passaram. Já se foram quase 15 anos de carreira e me orgulho de dizer que passei por praticamente todas as áreas da comunicação como jornalista/radialista. Editei revistas, trabalhei em Internet (fazendo texto e vídeo), falo no rádio, trabalhei em dois canais de esporte à cabo, estou hoje na TV aberta. Tudo isso (mesmo quando estive no Terra, que entre 2006 e 2012 foi um portal vanguardista), com a cabeça dos anos 90. Achando que um dia alguém iria reconhecer o meu talento, me pagar um salário fenomenal e eu seria feliz narrando clássicos aos domingos 16h e uma final de Copa do Mundo.

Mas o cenário não é mais esse e faz tempo. Temos cinco grandes canais de esportes na tv por assinatura. Dezenas de vozes levando a emoção do esporte quase diariamente para um público de mais ou menos 13 milhões de pessoas que tem TV à cabo em casa. Fora as três emissoras abertas que tem esporte em sua programação. O valor de uma transmissão esportiva está pulverizado. Toda hora tem uma disputa de alguma modalidade na televisão. Às vezes a gente até se confunde sobre quem vai narrar tal partida. A função perdeu concentração de valor. O nível de exigência, consequentemente, caiu. Paga-se menos.

Também tenho acompanhado com mais proximidade o movimento forte que tem acontecido no meio digital. Com fim da redação do Terra, comecei a tentar ver para onde estão indo os pensamentos e investimentos do marketing digital. Todas estas pesquisas, cujas fontes muitas vezes são me enviadas pela minha amiga Mayra Reis, da Alma Gestão de Comunicação e Marketing, me levaram até um encontro na FNAC de Pinheiros na última segunda-feira. Emerson Sanglard, gerente regional de marketing para a América do Sul da Copa Airlines, falou sobre a parceria com o São Paulo FC nas redes sociais.

Mostrou números incríveis de aumento de engajamento e falou como as ações com os clubes nas redes sociais dão um retorno em métricas de audiência e conversão em vendas imediato e com uma MEDIÇÃO CONFIÁVEL. E disse mais, que esse acordo, que rendeu ao Tricolor cerca de R$ 4 milhões anuais, RENDEU MAIS ÀS METAS DELE DO QUE UM SPOT NO RÁDIO. Aí meus cabelos caíram de vez. Perguntei a ele sobre a crise no jornalismo e as demissões e qual rumo isso deve tomar. A resposta:

“Acho que o caminho é a integração das plataformas. Claro que as mídias de massa são importantes para a consolidação das marcas, mas meu negócio é quase totalmente digital. Em dois cliques eu compro uma passagem. Se alguém ouvir um spot da Copa no rádio até ele chegar a um device para comprar a mensagem pode se perder. Aqui eu tenho a venda e tenho o mailing numa única ação. Por isso, uma grande parte da minha verba de publicidade está nesta ação com o São Paulo”.

O Terra, onde trabalhei por 7 anos e um portal pioneiro na transmissão esportiva, em 2006, que reduziu drasticamente sua produção de conteúdo porque não conseguiu rentabilizar seus investimentos em direitos de transmissão. O streaming se tornando o novo protagonista (principalmente com os smartphones cada vez mais poderosos). O Netflix começa a incomodar programadoras e operadoras de TV por assinatura. O Spotify expande seus negócios ano após ano. Ou seja. O modo de consumir conteúdo pelas pessoas está mudando.

Para “surfar” nesta onda, é preciso estar nas plataformas tradicionais, mas também na internet. E não basta ter um portal sensacional, porque hoje os conteúdos chegam até nós pelas redes sociais de acordo com as nossas PREFERÊNCIAS, com o NOSSO PERFIL. Nós aqui do lado de cá do balcão não controlamos mais a “notícia”. Seguindo esta lógica e olhando o perfil de quem hoje está nas cabeças das organizações de mídia — salvo exceções — não está pensando nisso (ou aparentemente não está).

Os grande players desse mercado ainda estão engatinhando na era dos Portais, quando essa já passou. Agora buzzfeed, streaming, mobile são os termos do momento. Quem não se posicionar vai morrer em breve. E muitos de nós morreremos junto. Lendo hoje um artigo de Mauro Segura no Meio & Mensagem, uma provocação me pegou em cheio:

“Em vez de criarmos lindas peças de publicidade para serem veiculadas na mídia que conhecemos, O NOVO PARADIGMA SERÁ DESENVOLVER IDEIAS QUE POSSAM SER COMPARTILHADAS E ESCALADAS E QUE MOTIVEM AS PESSOAS A DISTRIBUÍ-LAS. (…) Pense na nova geração de seres humanos nascida imersa no mundo digital e no mundo on demand. E aí? Tá confortável na cadeira?”

Aí eu caí da minha. Você vai me dizer: “Marcelo, calma! Você é locutor esportivo! Isso não te atinge”. Não é bem assim. Talvez não diretamente na nossa função, que vai continuar existindo porque o esporte precisa das nossas vozes e das nossas informações. Mas a forma de empacotar e distribuir isso tudo vai mudar. E a gente precisa estar ligado, seja para convencer o nosso chefe ou criar, como dizia o “seu Tuta”, da Jovem Pan, “a sua própria rádio para fazer como você quiser”.