Eu sigo um fascista.

E sobre como tentamos colonizar uns aos outros.

“Seguir” nos dias de hoje tem uma conotação muito peculiar. Você clica em um botão de uma rede social e, de repente, começa a ver tudo o que aquela pessoa faz (ou pensa). Ou ao menos aquilo que ela quer que saibamos.

E, no triste dia de hoje, vejo muitos de meus amigos desfazendo amizades uns com os outros, com base nas pessoas que elas “seguem”. E não apenas no mundo digital.

É bem interessante perceber como aquele inocente botão tornou-se, da noite para o dia, uma “declaração de concordância com todos os atos do seguido”. É praticamente a mesma coisa que dizer que você concorda totalmente com o conteúdo de um livro que esteja lendo, mesmo que esteja apenas na primeira página.

Aliás, o que há de errado em ler um livro quando não concordamos com ele? O mesmo se aplica em conversar com uma pessoa, escutar algum tipo de música ou até (em português bem claro) seguir o Bolsonaro nas redes sociais.

Diga-se de passagem, dentro de minhas áreas de interesse, eu acho mais importante ter conhecimento e acompanhar coisas que não concordo do que o contrário. Você não aprende nada ao, insistentemente, ler coisas que já leu. Ou até ao aprofundar-se em textos que possuem, exatamente, as mesmas fontes.

Quando se trata de um fascista, como o Bolsonaro (em minha opinião), acredito que acompanhá-lo seja ainda mais importante.

Vou tentar ilustrar da seguinte maneira: vamos supor que estejamos falando de Hitler. Você prefere, minimamente, saber o que ele faz (e ter conhecimento das coisas que ele propaga) ou gostaria de não ter a menor ideia do que o cara está fazendo? Eu fico com a primeira opção.

Eu não condeno os amigos que estão por aí, excluindo todos os “seguidores” do Bolsonaro. Mas fico me perguntando qual será a próxima. Amanhã vão desfazer amizades com os “seguidores” da Dilma. Depois do Temer, depois do FHC, depois do Cunha. E quando acabarem os “seguidores” de políticos, talvez partam para os “seguidores” de pagodeiros, de duplas sertanejas…

Vale lembrar que este movimento de negação de diferenças é muito comum quando se trata de cultura, por exemplo.

Isso não é música! Isso não é fotografia! Isso não é arte!

Quantas vezes não escutamos, ou até falamos, ao menos alguma das três frases acima? Exceto em casos criminosos — onde há claramente a incitação a algum ato ilícito, como a pedofilia, por exemplo — quando podemos determinar, de fato, o que é, ou não, uma manifestação artística ou cultural válida?

Por mais que você leia Nietzsche, Dostoiévski ou Bauman, em momento algum lhe é concedida a outorga, o direito, de dizer o que é válido ou não.

Um caso muito curioso que vale a pena citar é a estória do Funk Carioca, lindamente contada pela NatGeo Brasil (aqui). O movimento, acredite se quiser, surgiu nos bailes de classe média, em bairros como Botafogo e Copacabana e, tendo sido julgado como “marginal” pela elite mpb-bossanovense, logo subiu o morro e materializou-se em tudo que bem conhecemos.

Teimamos em classificar como ignorantes culturas, teoricamente, menos polidas que as nossas e, por mais que nós brasileiros afirmemos que fomos “colonizados” pelos portugueses, não nos falta o ímpeto colonizador de querer mostrar aos outros “o que é bom de verdade”.

Voltando ao assunto da política, talvez agora fique mais claro de ilustrar. Sobre todos os fascistas (e outras figuras nefastas que aparecem) — eu prefiro “segui-los” bem de perto, saber todos os seus passos, conhecer seus rostos, do que permitir que eles cresçam às sombras, sem eu ter a menor ideia de onde e como eles estão.

O funk, uma vez banido, decidiu subir o morro e encontrou no caminho empresários que possuíam recursos e souberam legitimar aquele movimento a seu favor — ou você ainda acha que os grandes traficantes não pensam como empresários?

Receio imaginar que tipo de figura os fascistas (e todos os seus outros colegas), uma vez banidos, encontrariam por aí, dispostos a ajudar, contribuir, fazer suas ideias crescerem às escuras... Eu hein!

É o trabalho de uma mente educada, entreter-se com um pensamento sem, necessariamente, concordar com ele. Aristóteles
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