Camelôs no centro de BH: a volta dos anos 90?


Chega a tarde de mais um dia quente na capital mineira. Do céu nublado, uma forte chuva ameaça desabar. Multidão apressada, ocupada com intermináveis compras. Na rua dos Carijós, arredores da Praça Sete, quem se aventura a gastar tempo buscando o melhor preço se depara com o assédio de dezenas de vendedores ambulantes que ocupam grande parte da calçada. Tendo apenas o chão ou pequenas bancadas de madeira como vitrine para seus produtos, estes camelôs sempre chamam a atenção, seja pelo grito ou pelo inusitado leque de opções oferecidos à clientela. O cardápio é variado, frutas, meias, água, bolsas, tênis, acessórios para celular, perfumes, guarda-chuvas, e, nesta época do ano, adereços de carnaval. Não raro, um ambulante expões seus calçados em frente a uma famosa sapataria, atraindo fregueses dispostos a garantir as compras sem gastar muito. Marília Oliveira, 43, escolhe um par de sandálias e garante que ficou satisfeita, apesar de não saber a procedência do calçado.
Se para muitos consumidores é vantajoso comprar de um ambulante, para o lojista é sinônimo de concorrência desleal, por ter que arcar com uma série de encargos para manter seu estabelecimento aberto, enquanto o camelô vende seus produtos sem a incidência de impostos. A CDL/BH confirma que o impacto no faturamento do varejo é alto, embora não tenha um estudo que determine o tamanho do prejuízo. A entidade aponta o aumento da taxa de desemprego — associado à grave crise econômica — como o principal motivo para o aumento da informalidade.

Se a crise econômica é a desculpa para comprar nos camelôs, também é a desculpa para vender. Danillo Souza, 23, vende máquina de depilar na Rua São Paulo e nem pensa em voltar ao mercado formal. Era pintor de paredes, mas há 3 anos ficou desempregado, quando o setor de construção civil entrou em declínio. Sem opções e com um filho para sustentar, decidiu trabalhar com produtos eletrônicos nas ruas de BH e se descobriu como vendedor. Seu objetivo é abrir uma loja no Shopping Oiapoque, mas por enquanto segue oferecendo suas maquininhas atrás de uma bancada improvisada.

A poucos metros dali, Lafaiete Ferreira, 40, vende guarda-chuvas na Rua São Paulo esquina com Avenida Amazonas. Aposentado desde que teve seu braço direito amputado, Lafaiete trabalha para complementar o benefício do INSS, além de “manter a cabeça ocupada”. Segundo ele, a culpa da informalidade é dos políticos que deveriam incentivar a geração de emprego em vez de roubar o patrimônio público. Quando à fiscalização, Lafaiete garante que não observou nenhuma mudança ao longo dos últimos anos. Embora não possua estatística que comprove o aumento do número de camelôs na área central, a Secretaria de Fiscalização da Regional Centro-Sul concorda que tal aumento é bastante visível. Em 2015, foram emitidos 2.670 autos de apreensão de mercadorias, ao passo que em 2016, até o dia 14/12, foram registradas 4.050 apreensões, aumento de quase 50%.

Centro de Belo Horizonte, ocupado por camelôs.

Ver as ruas do hipercentro tomadas por camelôs é como voltar ao passado. Nos anos 90 ambulantes com suas barracas metálicas compunham um cenário caótico, dificultando o deslocamento dos pedestres. Lorena Marques, 34, se lembra bem dessa época: “era difícil andar pela rua Rio de Janeiro. Hoje em dia está bem melhor, mas os camelôs estão voltando”. Suja e degradada, a região passou por um processo de revitalização após a criação, em 2003, do Código de Posturas do município — Lei número 8.616/2003 — , que proibiu a atuação de vendedores ambulantes nas ruas. Na época, 2.771 camelôs foram transferidos para shoppings populares, onde até hoje vendem seus produtos com mais estrutura e organização.

Barraca de venda de óculos, controles remotos e acessórios para celular.

Apesar de haver fiscalização, o comércio informal segue crescendo nas ruas da capital, afinal “todos precisam trabalhar”, afirma Lafaiete, que vê suas vendas de sombrinhas aumentarem nestes dias típicos de verão. Enquanto a chuva não cai, e a economia do país não reage, os ambulantes dominam a paisagem urbana, desafiando a rotina dos pedestres e a paciência dos lojistas.

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