A segurança é pública ou privada?

A nostalgia nos arrebata quando saudamos os tempos de outrora como mais felizes que os atuais. É uma saudade, de fundo melancólico, de supostos ideais que não se concretizaram no presente. Por isso, acreditamos que éramos mais felizes antes. E, exatamente por isso, nos rendemos à ilusão de que só o passado nos podia garantir benesses ou soluções, que não mais encontramos nos dias de hoje. Somos nostálgicos do sorvete na praça, do domingo de futebol arte na arquibancada de cimento, do namoro distraído no portão de casa, da terra de chão batido dos campos de pelada e bolinhas de gude e dos céus coalhados de pipa nos ventos de outono. Enfim, somos de um tempo em que a cidade ainda se formava sem grades, muros ou cadeados, onde a vizinhança se revelava por rostos, nomes, brigas de família e barulhos. Vez ou outra, o amigo do alheio se aproveitava da distração do incauto e afanava a ingenuidade das certezas de então. Batedores de carteira já reinavam onde lá estivesse apressada a multidão.

Mas, a cidade cresceu atabalhoadamente e viu acumular um turbilhão de demandas sociais, que logo se tornaram casos de polícia. Reivindicar e, principalmente, protestar contra o sufoco, a injustiça e a qualidade precária de vida serviram para transformar a polícia num aparato essencialmente repressor. Nos anos de ditadura militar, sofisticaram-se os métodos violentos em detrimento das ações mais técnicas e investigativas a serviço da cidadão. A cidade continuou crescendo. E, com ela, a violência em todos os sentidos, ao ponto da polícia não dar mais conta das ocorrências do dia a dia. Hoje, vivemos numa espécie de escolha perversa, onde só o crime que rende manchetes na mídia é que parece merecer atenção. As inúmeras ocorrências de furtos, assaltos, agressões e toda a sorte de covardias praticadas contra o cidadão comum passam ao largo da atenções prioritárias da estrutura policial. É como se houvesse um cansaço, um certo enfastio da autoridade diante de um inimigo previsivelmente invisível, que se vale da impunidade para sofisticar ainda mais a prática ousada de seus métodos. Isto sem falar na própria conivência ou corrupção de agentes, que não se dão mais ao trabalho, já mal remunerado, de investigar e desvendar funcionalmente os crimes registrados. A proliferação das chamadas pequenas ocorrências sem qualquer solução alimenta o apetite insaciável de uma indústria de segurança, que vem transformando casas e prédios em fortalezas supostamente inexpugnáveis, onde os itens de decoração arquitetônica dão lugar a cercas elétricas, arames farpados, alarmes, lâmpadas de segurança e muralhas. Tudo pra emagrecer o ladrão e engordar os lucros de quem ganha com a ineficiência e/ou negligência policial. Onde falta segurança pública reina a vigilância privada e seus aparatos supostamente infalíveis. E, mesmo assim, os criminosos não se dobram. A ausência da proteção policial alimenta no cidadão comum as razões do preconceito e do ódio social contra pobres, pretos e outros marginalizados. Caldo perfeito para os argumentos daqueles que defendem a autoproteção armamentista da sociedade, carreando mais grana para o milionário negócio privado da segurança, que inclui empresas, milícias, policiais em hora de folga e até traficantes, que precisam de paz pra tocarem seus lucrativos negócios.

Pois bem, o fato é que, um mês depois do ousado furto de um homem aranha, no interior do meu apartamento de 4º andar, num prédio supostamente protegido de um bairro de classe média de Belo Horizonte, a polícia sequer se incomodou em fazer-me uma visita para, pelo menos, dar a impressão de que poderia estar investigando o modus operandi deste ser de recursos alados, que anda invadindo prédios na vizinhança. Sem qualquer ilusão para a solução do meu caso, imaginava que outros poderiam, assim, ser evitados. Mas, parece que a polícia, por falta de estrutura, know how ou preparo, há muito tempo, já jogou a toalha…

“Tempo bão…ê…ê… não volta mais, saudades de outros tempos iguais!” (Lilico)

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