ISENÇÃO DE VERDADE

Se há uma palavra que vem perdendo gradativamente o valor, no Brasil, é isenção. Embora a Rede Globo e outros veículos afins ainda se arroguem de sua utilidade, até o pior cego percebe que a nossa velha imprensa já enterrou este atributo faz tempo. Em nome da isenção, a mídia vem construindo a sua agenda exatamente no passo a passo do golpe. Não importam os pecados, nem a falta de isenção dos políticos. Aliás, é como se para eles este valor definitivamente já tivesse deixado de existir. Portanto, não há o que questionar, ou melhor, não haveria isenção melhor do que simplesmente não questionar. Afinal, são eles — os políticos — os julgadores de si próprios, a despeito da sociedade e dos órgãos de controle como o STF. A velha imprensa, então, supostamente não julgaria, mas, em compensação, o que ela gosta mesmo é de jogar para os leões aqueles que não preza. É uma proeza que dá capa de revista, manchete de jornal e longos minutos preciosos dos telejornais.

A isenção parece enrolada na última ponta do fio interminável de um grande novelo. Ela está lá, mas, não aparece. E, assim, a costura da grande farsa vai se dando como se a isenção não fizesse parte essencial do processo. Por exemplo, quando, em tempos ditos democráticos, um corrupto poderia julgar e condenar um inocente de corrupção? Onde, senão nas ditaduras, o rito célere e sumário de um julgamento poderia atropelar toda e qualquer hipótese de defesa para confirmar, sem apelação, um resultado já previamente definido? Em que estado democrático de direito rasgaria-se a Constituição para condenar, sem crime de responsabilidade, uma Presidente ante os olhos coniventes do STF — nosso zelador maior da Constituição? Onde se escondeu, portanto, a tão propalada isenção? No fim do novelo ou da vergonha do homem público brasileiro?

Se este é um ideal romântico, em tempos de radicalização de posições, podemos concluir que, na guerra, não pode haver isenção: ou se está claramente de um lado ou publicamente de outro. A raposa só vai elogiar o corvo se for pra abocanhar o queijo da lisonja. E, se a ave não for esperta, cai do galho e vai pro sacrifício também. Enfim, a isenção é um acessório aparente, que serviria também à hipocrisia daqueles, que se fazem de idôneos, a serviço da respeitabilidade de uma grande farsa montada em prejuízo da democracia. Mas, quem se importa quando a isenção é letra morta?!…

Agora me diga: você daria suas bananas pro macaco tomar conta? Pediria ao ladrão pra cuidar da sua casa? Ou escalaria o velho juiz José Roberto Wright para apitar mais um jogo do Atlético Mineiro?!… Pois é, e aqui vamos nós, mais uma vez, confirmar o que já está decidido unilateralmente pela oposição desde 2014: a derrota incondicional da Presidente Dilma, a despeito do resultado das urnas e do que determina a Constituição. E suprema ironia tramada: não é que o relator da admissibilidade do impeachment, no Senado, é justamente o discípulo mais obediente do candidato derrotado pra Presidente, o seu conterrâneo mineiro, Senador Antônio Anastasia? Não é preciso entrarmos no mérito do comportamento “ciclístico”, de constantes pedaladas fiscais, de Anastasia, enquanto governador de Minas. Mas, é com natural isenção que perguntamos: há isenção nesta escolha? Não estaria o Senado entregando as bananas pro macaco tomar conta? Ou podemos esperar um relatório de conclusão imparcial do nobre Senador mineiro? Estaria ele apto a julgar com isenção o que vai contra a sua indubitável vontade política?

E assim vai-se desfiando o novelo da história, esquecendo-se propositalmente de que, para se fazer justiça, a isenção é um valor sagrado. Mas, no Brasil, é outra a História…

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