Reflexões de 2ª

(texto original de novembro de 2009, escrito em Bilbao, Espanha)

Na manhã da última sexta-feira participei de um curso sobre domínio e análise da variabilidade em processos produtivos. A primeira metade do curso se mostrou como a expectativa do mesmo no dia anterior: chata, pouco prática, monótona e linear. Convenhamos: pelo assunto mencionado acima não podia se esperar grandes coisas, ou as horas mais interessantes da semana. Resumindo, um condensado de teoria copiada de livros demasiado técnicos e um palestrante desmotivado com cara de Prof. Pardal. Eu travava uma luta interior pra manter os olhos abertos e fazer cara de quem está interessado, visto que constantemente eu atraía os olhares do interlocutor, como se ele já desconfiasse que eu não era nascido em terras espanholas. Talvez estaria se perguntando como um imigrante fora parar ali, participando da Semana de Qualidade do Governo Vasco. Nem a elegante senhora com quem compartia o “palanque”, encarregada de apresentar a segunda parte do curso, prestava atenção no discurso de seu colega. Preferia lançar olhares sobre a pequena platéia ou fingir fazer anotações em uma folha de papel.

Surpreendentemente, o conteúdo por ela apresentado atraiu a atenção de todos os presentes, Prof. Pardal incluso. Com inteligência e simpatia, a palestrante mostrou em teoria e prática como analisar e diminuir a variabilidade de resultados mediante dois pontos muito importantes: observação e experimentação. Mal sabia ela que depois de um sábado regado a vinho e futebol, me esperava um domingo de ressaca e reflexões sobre a semana que terminava e a que estaria por vir.

Jogado no sofá com a garrafa de água a tiracolo, eu me perguntava se a teoria apresentada no curso poderia se enquadrar como uma espécie de filosofia consciente de vida; observar e experimentar sempre, seguidas vezes, sempre que surgisse o desejo de mudança. Seja ela da magnitude/dificuldade que for. De uns tempos pra cá, descobri que passei a valorizar mais as mudanças em geral. Por mais duro que seja abandonar a “zona de conforto” em que nos encontramos inicialmente, ao final parece que a dificuldade é sempre recompensada, quase que como uma garantia, fruto de uma intuição que nos faz sentir que estamos fazendo algo que realmente deveríamos estar fazendo, que estamos trilhando o caminho correto, se é que existe UM caminho correto.

Sendo assim, talvez influenciado pela ‘entorpecência’ pós-embriaguez ou pelo estranho sono de uma noite mal dormida, me fixei ao binômio “observar-experimentar” como conduta a ser testada durante esta semana. “E pra quê?” — me perguntaria um leitor mais assertivo. Pois boa pergunta. Pois não sei. O que eu sei é que vejo várias mudanças que me cairiam muito bem, umas fáceis, outras difíceis; umas simples, e outras nem tanto. E isto não quer dizer que as fáceis sejam as simples, que fique claro. Quem conhece e gosta dos Beatles sabe: a grandiosidade de suas músicas estava por muitas vezes na simplicidade das mesmas! E com certeza não há absolutamente NADA de fácil em compor canções no nível Lennon/McCartney.

Então é isso, observar, experimentar e mudar. O tripé que sustenta este texto de segunda-feira. É incrível o poder que este dia da semana exerce sobre nossas mentes! ‘Variabilisticamente’ comprovado! Essa semana vou experimentar dormir melhor, reforçar o café-da-manhã, tomar 2 litros de água por dia e gastar menos tempo pensando bobagens. E você ?

Ah, e a primeira mudança já está definida: sem reflexões baratas no próximo post. Para terminar, um lado B dos Fab Four que ilustra o exemplo descrito acima.

Porque eu te disse antes….ô, você não pode fazer aquilo.


Originally published at nuembromas.blogspot.com.br on November 23, 2009.