OS DEZOITO ANOS DELA E O CABELO BRANCO OU “A INESPERADA VIRTUDE DA PATERNIDADE”.

Acordei hoje e o dia não estava como os outros. Nada tinha mudado, mas algo estava diferente. Olhei no espelho e lembrei: HOJE ELA FAZ 18 ANOS! (Se você está fazendo cálculos mentais pra descobrir minha idade desista, não faz sentido) Ao final desse pensamento e ainda olhando no espelho, minha mente foi invadida por um filminho. Eu sei, é clichê, é brega, mas continue que vou tentar melhorar. Nesse filminho, fui atropelado por imagens de fatos que aconteceram ao longo dos últimos 19 anos. Entre todas as imagens, gostaria de compartilhar com vocês o momento em que fui pai. Diferente dos outros pais, o meu momento é, pra dizer o mínimo, peculiar. (demorei pra encontrar o adjetivo certo) Para a maioria dos homens funciona assim: primeiro recebe a notícia, aí a notícia vira uma barriguinha que se transforma em um barrigão. A bolsa estoura, (aqui varia um pouco, eu sei) vão todos para o hospital (aqui também varia), alguns entram junto na sala de parto, outros esperam lá fora. A enfermeira vem com ele ou ela nos braços e POW! Nasce mais um pai. A minha versão tem menos sangue, mas tem mais suor, lágrimas, laboratórios e advogados. Pra não entediar nem assustar vou resumir.

Tudo começa assim: eu e minha mãe chegamos ao laboratório (avisei que era peculiar) e desde a entrada parecia que todos me olhavam de forma estranha. Quase como se todos estivessem me esperando. Meio “Show de Truman”, sabe? Entrego os documentos à moça da recepção e vou aguardar em uma salinha reservada o resultado do exame. Nessa hora o coração disparou… porra, é agora. Sou um cara calmo, mas aquele momento me deixou muito tenso. Minha mãe ao meu lado parecia estar serena, ela se apegava a um filete de esperança de que o resultado do exame mostraria que aquela história insana não passava de um engano. Foram poucos minutos de espera, mas pra mim levou uma gestação de 9 meses e meio. Até que a funcionária do laboratório entrou na sala com o envelope nas mãos. O tempo meio que parou junto com meu coração. Bom, lá vai…abro o envelope “AND THE OSCAR GOES TO…ME”. Com 99,99999324% de compatibilidade, recebi a notícia mais louca e emocionante da minha vida. Numa salinha, sem sangue, sem mãe e, principalmente, sem filha. Eu e meu envelope branco fomos pai. Sim, eu chorei. Confesso: chorei pra caralho, de alegria e medo do que viria depois. Naquele peculiar momento fui pai de uma garotinha de 9 anos, uns 36kg, 139 cm de altura, uma boca grande, um nariz empinado, sobrancelhas grossas e muito falante. (acredite, ela fala mais que eu!)

Bem, se você continua lendo esse textão até aqui, talvez essa história tenha tocado você de alguma forma. Mas fique tranquila(o), o tempo passou e hoje todos os envolvidos estão relativamente bem e encontraram um modo, de um jeito ou de outro, de seguir em frente. Meus amigos próximos já ouviram a versão completa dessa história muitas vezes e alguns deles já sabem mais detalhes que eu mesmo. Outros até fizeram parte da história, como o Eduardo Tavares (estava ao meu lado quando vi a foto dela no Orkut pela primeira vez) e algum dia podem virar personagens de um livro que estou escrevendo (aviso: algumas partes serão pura novela mexicana) ou até mesmo de um filme, em que o Wagner Moura será o protagonista. (na real pode ser qualquer um, menos o Selton Mello) Mas voltando ao assunto, hoje ela faz 18 anos e esse momento do “parto” surgiu vívido e rico em detalhes como se tivesse acontecido ontem. Pensei que talvez ela gostasse de saber como foi e o que eu senti no momento em que ela nasceu pra mim. Sei lá, eu gostaria. Não sei se isso um dia chegará até ela, mas quem sabe né… Queria que ela soubesse que nem por isso me tornei uma pessoa amarga ou de mal com a vida. Tem uma frase de um filme meio água-com-açúcar “SE EU FICAR” que vi esses tempos e acho que cabe nesse momento: “ÀS VEZES VOCÊ FAZ AS ESCOLHAS NA VIDA E, ÀS VEZES, AS ESCOLHAS FAZEM VOCÊ.” Certamente me transformei em uma pessoa melhor depois desse dia. Fui promovido de homem para Pai.

Talvez você esteja pensando agora “tá, mas e o cabelo branco?!” Ok, eu explico: depois dessa trip olhando no espelho, notei o surgimento do meu primeiro fio de cabelo branco. Sorri e pensei: AGORA SIM, COM CARA DE PAI.

P.S.: Filha, desde 2007 e ainda hoje quero muito ter você na minha vida. Parabéns pelo seu dia, espero que você esteja bem e feliz.

P.S.2: Filha, além desse texto, também escrevi uma carta só pra você. Ela ficará guardada comigo até que eu possa um dia te entregar em mãos.

P.S.3: Amo você

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