Timing

Nestor gostava de dizer que era o cara do “timing”. No departamento de marketing da firma ninguém contestava. Nestor realmente sabia o momento exato de lançar um produto novo ou uma nova campanha para um velho produto. E era assim em casa também. Como no dia em que sua filha se queixou de que a professora tinha achado sua redação muito parecida com a de uma coleguinha e, como ela havia entregue a dela depois, ficou parecendo que ela é que tinha copiado a colega.

- O timing é tudo Ana Lúcia! Se você tivesse apresentado seu trabalho antes da concorrência, a professora jamais duvidaria de você.

Ana não entendeu muito bem aquela história de “taimin” e concorrência e achou melhor fazer outra redação.

Mas o timing, ou melhor, o tempo não pára, já dizia o poeta. E o tempo de Nestor e Lúcia juntos havia se acabado há quatro anos. Vítima de um tipo raro de câncer, o grande amor de Nestor havia deixado este mundo após trinta anos de uma união feliz e intensa. Ele agora vivia sozinho em seu apartamento, contrariando as sugestões da filha, que o queria morando junto com ela, o marido e o futuro neto, que viria ao mundo dali a alguns meses. Ana Lúcia gostava também de opinar sobre os cuidados com a saúde do pai. Vivia dizendo que ele deveria se mexer, fazer alguma atividade física, frequentar uma academia. Nestor não via com muito bons olhos essa história de academia. Na verdade, até onde se lembrava, a única vez em que havia entrado em uma academia fora para encontrar sua filha e perguntar onde comprar um bom churrasquinho. Ana Lúcia não gostou muito de ter de interromper sua aula de “body-jumping-power-lifting” — ou algo parecido — mas Nestor foi logo repetindo:

- Ana, eu já te falei. O timing é tudo. E o timing do meu churrasquinho é agora.

Como morava perto de Ana, Nestor achava desnecessário se mudar. E também tinha receio de, no futuro, se tornar um estorvo para o jovem casal. Como ainda se considerava relativamente jovem, no auge de seus 54 anos, e estava com “tudo funcionando”, preferia viver sozinho. Pelo menos até o dia em que considerasse que precisava de ajuda.

E a vida corria relativamente tranquila e rotineira para Nestor. Mas a saudade de Lúcia já não era tão forte quanto antes. E um certo bocado de solidão começava a ocupar seu coração. Sua filha já havia recomendado que ele procurasse se envolver em outro relacionamento, mas ele receava não saber mais como abordar uma mulher já que, nas últimas décadas, somente havia se dedicado à sua amada.

Foi então que Ana Lúcia sugeriu a ele que se matriculasse em uma atividade física que fosse realizada em grupo. Assim, poderia resolver dois problemas de uma vez: cuidar da saúde e, possivelmente, encontrar uma nova companheira. Nestor não gostou muito da ideia, mas admitiu que ela fazia sentido. E para não ter que enfrentar esse desafio sozinho, chamou seu velho amigo Jorge, com quem trabalhava há vários anos e que também era viúvo, só que muito mais desenrolado nas questões amorosas.

Jorge sugeriu que fizessem musculação, assim poderiam ficar de olho nas gatinhas. Nestor não achou uma boa ideia, pensando na dificuldade que teria para entabular uma conversa mínima que fosse com uma das “gatinhas”. Pensaram em praticar natação, porque oferecia uma probabilidade menor de lesão e era na água, coisa que ele também adorava. Nestor achou que natação seria muito pesado para começar.

- E que tal hidroginástica? É na água e é mais leve. Só pra gente ir acostumando. E você pode encontrar gatinhas da sua idade, brincou Jorge.

- É. Pode ser que funcione.

A primeira aula não foi muito animadora, e Nestor ficou com a nítida impressão de que a professora estava tentando matá-lo. Já Jorge achou que ela estava querendo sair com ele. Mas ele achava isso de todas as mulheres que olhavam para ele por mais de cinco segundos.

A segunda aula foi bem melhor. Foi nela que Nestor conheceu aquela que se tornaria a principal motivação de sua presença naquela piscina. Diana, 50 anos de pura alegria e simpatia. E que corpo! Assídua frequentadora da “hidro” havia 3 anos, Diana estava sempre sorrindo e parecia se divertir o tempo todo, mesmo durante os exercícios mais complicados. Para ficar perfeita só precisava trocar aquele biquini laranja por um azul. Nestor adorava azul. E, como se não bastasse, Diana ainda tinha lindos olhos azuis.

Com o passar do tempo, os exercícios foram ficando mais fáceis e as aulas mais divertidas. Principalmente após aquele dia em que Diana chegou usando um espetacular biquini azul, que realçava ainda mais a cor de seus olhos. Nestor sorriu e pensou que precisava convidá-la para um café. Só faltava a coragem. Mas como o tempo estava passando e ele já não aguentava mais a solidão, resolveu que falaria com ela na aula seguinte.

Antes da aula começar, Nestor comentou com Jorge sobre suas intenções com relação à Diana. Jorge fez uma cara estranha e disse que tinha duas notícias para Nestor. Uma boa e uma ruim. Nestor, prevendo o pior, pediu pela ruim primeiro.

- A ruim é que eu já saí com ela. Fomos tomar um suco, conversamos bastante e foi bem legal. Eu até sugeri a ela que comprasse um biquini azul, pra combinar com a cor dos olhos.

Nestor não conseguiu evitar um longo suspiro e sentiu a incômoda certeza de que havia, definitivamente, perdido o timing da questão. Estaria ele ficando velho?

- Tudo bem Jorge, e a boa notícia, qual é?

- A boa é que ela me perguntou se eu te conhecia, porque ela te acha muito…muito.. qual foi mesmo a palavra, ah sim, intrigante. Ela te acha muito intrigante e está bastante interessada em te conhecer melhor.

Nestor respirou fundo e pensou que, enfim, talvez o timing não fosse assim tão importante. Talvez um pouco de sorte fosse tudo o que um homem precisa em certos momentos.

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