Notícia de uma província distante

Com uma tirada de chapéu aos mestres Ian Gillan e Wolinski

Escrevi esta crônica de ficção originalmente no Facebook em 11 de janeiro de 2015, depois que o atentado ao semanário francês “Charlie” levantou um debate de surdos sobre a noção de liberdade de expressão. O debate só ficou muito mais confuso desde então. Para pensar no assunto mais a sério, leia a danah boyd.

A notícia de que terroristas atacaram o semanário francês “Charlie” e mataram seis cartunistas que trabalhavam na publicação abalou o mundo. Abalou também as maiores autoridades de uma distante província.

Mal se soube da notícia, houve uma reunião urgente entre o governador, o bispo local, o presidente do Legislativo e o diretor da escola secundária local.

— Fato lamentável, mas percebam que eles mexeram com o sagrado, e com o sagrado não se mexe — disse o bispo.

— De fato, leio que publicavam coisas ofensivas e de mau gosto — , disse o governador. — Passarinho que come pedra sabe a dor que lhe advém.

Ninguém queria que algo semelhante ocorresse em seu território, porém, e medidas drásticas precisariam ser tomadas. Não era por ser distante que a província estaria a salvo.

Esses terroristas não respeitam fronteiras, lembrou o diretor da escola. Nada os impediria de tomar um dos três ônibus que paravam toda semana na rodoviária local, orgulho da província, e matar a população inteira em poucos minutos caso se sentissem ofendidos por algo publicado na “Trombeta”, o jornal local — que, como todos na reunião sabiam, não tinha jeito.

O presidente do Legislativo, sem demora, teve a ideia de criar uma lei que evitasse as causas do ataque. A lei criava um guichê onde toda a população da distante província informaria coisas que achassem ofensivas e de mau gosto.

A partir do registro no Grande Livro das Ofensas, algo que ofendesse uma pessoa sequer não poderia mais ser dito ou visto naquela distante província.

As primeiras contribuições foram quase de consenso.

Não pode falar mal de qualquer religião, o que implicaria também que não se pode falar bem de qualquer religião porque há quem se ofenda com a religião alheia.

Não pode ficar falando dos parentes de ninguém, isso é consenso, e como todo mundo tem família fica proibido falar de quem quer que seja.

Não se pode citar um fato desfavorável sem citar todos os fatos desfavoráveis sobre quaisquer outras coisas que possam ser vistas como relacionadas ou opostas. Por exemplo: para poder dizer que Fulano roubou, se Fulano não for parente de ninguém, é preciso lembrar também que Beltrano roubou, Sicrano roubou e seguir a listagem até chegar a São Dimas, o Bom Ladrão da Bíblia (lembrança do bispo). Sem essa longa ponderação, não se pode citar fatos desfavoráveis. Reduziu-se muito a fofoca, porque quem é que tem tanto tempo pra ir tão longe na pesquisa?

Não pode olhar para as mulheres na rua. Olhar para homem também não pode. As mulheres também ficam proibidas de usar roupas muito olháveis (o diretor da escola era pai da moça mais cobiçada da província), e os homens ficam proibidos de sair malvestidos. Lactantes ficam proibidas de amamentar em público. Dirigir a palavra a estranhos é proibido.

Como o futebol desperta as paixões mais primitivas, está proibido falar mal do time dos outros. Bem do próprio time também não se pode falar, porque dizer “meu time foi campeão” ofende quem torce para o time que perdeu. Os dois times locais, que todo domingo disputavam o clássico da província no ginásio, sob intensa torcida, saíram contentes.

O governador e o presidente do Legislativo incluíram a provisão de que não se pode falar mal de político. Não se poderia falar bem de político também, porque todo político é adversário de algum outro e falar bem de um implica desfavor a outro.

Um ponto contencioso foi o musical. Muitos propuseram vetar o pagode. Outros propuseram vetar o rock também. Ainda outros vetaram a bossa nova. O governador, em sua sabedoria, propôs vetar a música como um todo, e portanto não se ouve mais música naquela província.

Beijar na rua: não pode. Usar pochete: não pode. Andar sem camisa: não pode. Rir alto: não pode. Rir baixo: menos ainda. Falar difícil: elitismo, não pode. Falar fácil: coisa de burro, não pode. Contar o fim do filme a quem não viu: NÃO PODE. Ler livros em público: ofende quem não tem o hábito da leitura, portanto não pode. Ler livros escondido: é suspeito, não pode.

Foram semanas de intensa deliberação, quando inclusive o nome daquela província foi considerado inadequado, e portanto não poderia ser dito. Foi apagado dali para a frente de todos os registros, e por isso não o mencionamos aqui.

Ao final da deliberação, decidiu-se que, em nome da paz, nada mais poderia ser dito a respeito de coisa alguma.

Parece que todos foram felizes depois — não há registros para garantir, porém.