Como o Angra me fez refletir sobre preconceitos, a (in)comunicação e a falta de cooperação na contemporaneidade.
Antes de iniciar o texto, vale uma contextualização importante. Não pretendo falar especificamente sobre "racismo", "homofobia" ou qualquer outra violência relacionada a gênero. A ideia de "preconceito" que está empregada neste texto é de maneira ampla, ou seja, qualquer "conceito" que é pré-concebido sobre algo. É claro que há intersecções, mas, reitero, não pretendo. Estamos combinados? (:
Isso posto, retomo minha adolescência pautada por espinhas, porres com três doses de whisky e muito heavy metal. Minha banda favorita na época era o Angra — aliás, até hoje ouço algumas das músicas que eu mais gostava. Entre meus amigos, isso era até motivo de piada. No interior de São Paulo, quase ninguém quer saber de ouvir Angra, só as "músicas baladinha do momento" e, claro, muito sertanejo.
Em algum momento, meu apreço pelo rock’n roll, mais especificamente pelas bandas Angra e Shaaman (esta segunda composta por ex-membros do Angra), virou o assunto de um almoço de família domingueiro. Minha avó tinha certeza de que as músicas faziam parte de um culto ao demônio e que os músicos eram um bando de drogados. Eu ria. Achava graça. E até legal, já que isso evidenciava o distanciamento dos meus gostos em relação aos de minha avó.

Como disse, ainda hoje ouço Angra. Eu já sabia que não era um culto ao tinhoso e que os músicos (em vez de apenas "drogados") eram exímios profissionais com formações que deixariam minha avó extremamente orgulhosa. O André Matos, por exemplo, possui uma formação que o qualifica como "regente, compositor, arranjador, orquestrador, cantor lírico e popular, multi-instrumentista, letrista e professor de técnica e interpretação vocais (Maestro e Tenor Lírico)" (fonte). Sem contar o Kiko Loureiro, que de tão foda tornou-se guitarrista do Megadeth.
Além disso, ao ouvir novamente algumas das músicas mais famosas (hoje com o inglês mais apurado), encontrei trechos como:
Time
"Oh, we’re searching for the love
That everyone’s got, but can’t see"
Carry On
"So, carry on
There’s a meaning to life
Which someday we may find"
Não sei o que você acha, mas a mim não parece um culto ao "mochila de criança". Aliás, hoje em dia talvez o Angra seria rotulado como um "Metal Hedonista".

Ainda assim, pelas roupas pretas, cabelos compridos, guitarras estridentes e o peso do pedal duplo da bateria, minha avó acreditava que esses caras eram, sem chance de argumentação, “satanistas emaconhados” (sic).
Tudo bem, hoje eu compreendo vovó. Isso acontece por conta dos signos que estão jogados na cultura apenas aguardando as interpretações individuais ou coletivas. No caso, o meu consumo simbólico do Angra tinha diferentes significados para nós. Para mim, uma busca adolescente por emancipação. Para vovó, a perdição do neto.
É aí que chego no ponto chave da reflexão. Dá pra dizer que vovó foi preconceituosa com o Angra? Se considerarmos que "pré-conceito" é, meramente, a pré-concepção sobre algo ou alguém, eu responderia que "talvez". Talvez porque, querendo ou não, para que vovó categorizasse o Angra como filhos do capeta, em algum momento na vida dela foi-lhe mostrado algo similar — através, novamente, de processos comunicacionais. Não especificamente o Angra, mas algum outro grupo de rock, ou até, às vezes, algum colega da sala de aula dela, lá nos anos 1940, que tinha cabelo comprido, ouvia rock e fumava um baseadinho de leve (talvez um crush?). Não sei, não dá pra saber, mas é inegável que algo similar foi-lhe apresentado anteriormente e, ao reconhecer alguns dos signos (cabelos compridos, guitarras, metal, etc), automaticamente ela transpôs ao Angra a mesma categorização.
O grande problema do preconceito está em não investigar o novo que lhe é colocado à frente. E, em vez disso, assumir que sabe-se tudo sobre este "novo" baseando-se em discursos prontos e vazios. Agora, imagine o peso disso quando não falamos de gosto musical, mas sim de etnia, classe social, gênero e orientação sexual — fica ainda mais pesado.
É com essa mesma lógica que eu vejo hoje em dia uma das maiores patologias da sociedade contemporânea: a pré-concepção sobre tudo e a preguiça de investigar e abrir-se para dialogar com este "novo". Hoje em dia, é quase que "obrigatório" ter opinião sobre qualquer acontecimento, mas pouco investiga-se para formar uma opinião robusta. Compra-se discursos que são dados e os reproduzem sem nem saber do que, de fato, se está falando. Os indivíduos utilizam as práticas de consumo (e o que elas significam para cada um) para categorizar as pessoas sem nem dar a elas a oportunidade de dialogar e, assim, estabelecer uma concepção mais embasada.
Alguns exemplos bobos que eu já presenciei (está resumido, é claro).
- Se usa gola polo, é coxinha. Se é coxinha, votou no Aécio. Gosta do PSDB. Apoiou o impeachment. É GOLPISTA NA CERTA.
- É estudante de ciências sociais? Deve ser a favor do aborto. Quanta crueldade. Só pode ser uma PETRALHA.
- Evangélico? Vixe. Sai fora. HOMOFOBIA NÃO.
Em menos de 5 minutos de pesquisa, eu encontrei uma foto do ex-presidente Lula usando uma gola polo do PT. Além disso, um texto inteiro dando voz à nova frente evangélica progressista. Sem contar as empresas do mercado financeiro que contratam cientistas sociais para auxiliar na previsão de fenômenos que interferem nas oscilações de valores das ações na bolsa.
Veja como o raciocínio molda-se a partir das práticas de consumo. Dizem que "somos o que consumimos", mas eu refuto com um adendo:
Somos, para o outro, a opinião que o outro tem sobre as nossas práticas de consumo.
Daí o ser humano, como bicho social que busca aceitação, acaba criando seu círculo de amizade tomando como base os mesmos gostos e opiniões. São as "tribos", pautadas também por práticas de consumo — pausa para recomendar o documentário The Altruism Revolution, que mostra esse fenômeno a partir da neurociência #TemNoNetflix.
Sobre "tribos", mais especificamente "tribalismos", vale muito a leitura do livro "Juntos", do sociólogo Richard Sennett. A discussão do autor gira em torno do "trabalho colaborativo" (mas não é o trabalho colaborativo new age empreendedor de palco não). Basicamente, o autor discute a cooperação entre seres humanos e o que seria necessário para que nós pudéssemos, de fato, construir relações colaborativas em prol de um bem comum.
A primeira premissa do autor é que, por motivos similares ao que descrevi até então, o mundo está demasiadamente dividido em tribos. Assim, os indivíduos criam uma divisão perigosa de mundo, a divisão entre "nós" e "eles": onde "nós" é o lado certo da história e o "eles" é um inimigo a ser combatido (e vice-versa). E isso é feito às cegas, exatamente igual àquele episódio de Black Mirror das "roaches" (S03E05 #TemNoNetflixTambém). Aliás, o nome do episódio já diz tudo: "Men Against Fire". De um lado, os "homens", de outro, o "fogo". É praticamente um "We Against Them". Indo além, pela trama, há uma transposição de lados. As “roaches” é que são “Men”, e o “Fire” seria os tiros impiedosos disparados pelo exército futurista. Louco, não?

Para Sennett, é preciso quebrar a barreira que divide "nós" e "eles" através da prática do diálogo e da construção de uma relação a longo prazo entre as partes distintas — a longo prazo para que, assim, seja possível desenvolver um sentimento de empatia. Pode parecer simplista, mas realmente acredito que a chave para a colaboração e a diminuição de confrontos é o diálogo. Mas cuidado com isso, pois, para haver diálogo, é imprescindível que ambas as partes estejam conscientes disso e realmente abertas a essa relação dialógica colaborativa. É preciso ter cautela para não entrar em uma briga argumentativa acreditando que você está em uma relação dialógica.
Relações dialógicas entre partes distintas hoje em dia são realmente possíveis? Não sei. Em um contexto neoliberal onde a competitividade e o individualismo imperam (principalmente em uma sociedade de curto prazo), eu vejo pouco espaço para que a colaboração se espalhe. Dialogar exige um esforço o qual eu não sei se os indivíduos contemporâneos estão dispostos a fazer. Principalmente porque eu estou falando de diálogo de verdade, com abertura, olho no olho. Não de discussões facebookianas, principalmente as agressivas.
De qualquer forma, acredito também que não precisamos, por exemplo, dedicar nossas vidas a uma conciliação entre Israel e Palestina, mas podemos nos propor mais ao diálogo com as pessoas que estão ao nosso redor e que, por algum motivo, divergem dos nossos gostos e opiniões. Aliás, na verdade, é o mínimo para mim. Há um tempo estou me comportando assim e cada dia que passa me surpreendo ainda mais (: