Um grande orador é um apaixonado pelo que fala.

Apaixone-se. Costuma ser meu primeiro conselho ao jovem professor ainda tateando os caminhos da profissão. Tento explicar que o poder de atrair a atenção do aluno, inspirá-lo e motivá-lo a conhecer está diretamente relacionado ao grau de paixão do professor pela matéria que leciona. Apaixone-se pelo que você fala.

A curiosidade sobre qualquer coisa é despertada por uma apresentação apaixonada. Sempre. Experimente conversar com alguém que é apaixonado por vinhos, por exemplo (mesmo que vinhos estejam longe do seu raio de interesse). Enófilos costumam vibrar falando de diferentes uvas, aromas e sensações que um bom vinho pode provocar. E quando você menos espera, lá está você procurando no Google um dos rótulos que foram mencionados.

A mecânica disso é simples e compreensível. A paixão transborda no apaixonado. Por isso apaixonados adoram falar de seus amores o tempo inteiro, precisam convencer os outros de que aquilo que sentem é sublime. É verdade que paixões românticas nem sempre são compartilháveis ( entendeu porque é chato ouvir por muito tempo aqueles amigos enamorados?. Mas não é o que ocorre com o professor apaixonado…

Professores têm na sua paixão um elemento inevitável de doação. Sua sabedoria, quanto mais plena, mais precisa ser ouvida, tocar, influenciar e transformar outras pessoas. O conhecimento do professor é um convite franqueado a todos, um chamado à uma experiência que de tão boa precisa ser dividida. É um filme que precisa ser discutido, um prato que precisa ser recomendado. Para ser professor é preciso expor sua paixão com o objetivo de produzir novos apaixonados.

Por mais estranho que possa parecer, é bem comum encontrar professores que não estão apaixonados — ou que pelo menos esfriaram a relação com sua disciplina pela falta de tempo de estudo ou por uma série de outras desculpas que acabam por produzir um cotidiano árido de reprodução insossa de informações na sala de aula. Falam de uma relação sem paixão. Não convencem, não animam. Aulas assim não despertam curiosidade. Despertam tédio, desinteresse, dispersão, indisciplina. Curioso como muitos dos problemas comuns numa sala de aula simplesmente desaparecem diante de um professor apaixonado no tablado.

Claro, isso não é tudo. Mas é um hábito obrigatório para professores de alta performance manterem aquecida sua relação com sua disciplina. Estudo, curiosidade, o gozo de novas descobertas e estratégias. Exatamente aquilo que se quer produzir nos alunos.

Então, por mais difícil que isso seja, antes de cruzar a porta da sala de aula, pergunte-se: sou realmente apaixonado pelo que estou prestes a falar? Em caso positivo, regozije-se. Caso contrário, e se for realmente seu desejo, você deve se esforçar para evitar a separação.