Missa do Galo

Nunca pude entender o fim do conto “Missa do Galo”, do Machado de Assis.

Sempre que eu o releio, é como se eu quisesse acreditar que, um dia, o rapaz da história vai entender os sinais de Dona Conceição, declarar-se para ela — e por ela será correspondida. A partir daquela noite, os dois teriam um breve romance e, logo depois da morte do escrivão, iam viver felizes para sempre em Mangaratiba.

Ao mesmo tempo, sempre que repasso a caracterização de D. Conceição, mais eu concordo com o Nogueira: ela era uma mulher boa, muito boa.

Fiquei muito tempo pensando nisso. Até que, certo dia, sem razão aparente, me toca o telefone. “Deixe que eu atendo. Alô?”

“Boa noite, é o senhor M?”

“Sim, que deseja?”

“Aqui é o senhor C”.

“E qual seria o assunto?”

“Bem, eu ouvi dizer que o senhor estava procurando uma solução para o seu problema”.

“Ué, mas que problema?”

“Ué, o da Missa do Galo”.

“Ah”, eu ri. Mas logo fiquei perplexo: “ei, mas como o senhor sabe da Missa do Galo?”

“Eu soube que o senhor queria achar uma solução para o caso. Bem, eu tenho a solução”.

Claro que bati o telefone na cara do homem. Só podia ser trote. Ou não, já que eu nunca tinha contado essa minha história da Missa do Galo com ninguém.

Fiquei olhando para o telefone, entre arrependido e envergonhado com a pessoa que me ligou.

Eis que toca o telefone. Eu, que estava ainda do lado da mesinha do aparelho, pronto atendi: “alô?”

“Eu sabia que o senhor iria se arrepender de ter desligado na minha cara, então resolvi ligar de novo”.

“Espere”, respondi, mais confuso do que envergonhado. “Me dê o seu número. Deixe-me reconsiderar e, quando puder, eu ligo novamente, está bom assim?”

“Bom”, ele respondeu. “Se é assim, seja como o senhor quiser”.

Duas semanas depois eu retornei a ligação, e ele me deu o endereço do consultório. Era na Galeria Malcon, no centro. Quando vi o número da rua bater, pensei: “um consultório desses só poderia ser na Galeria Malcon”.

Quando bati a porta, atendeu um rapaz pálido, alto e muito magro, todo de negro, mas muito, muitíssimo parecido com o Cesare do Dr. Caligari.

“O senhor é o senhor C?”, perguntei.

“Não”, ele respondeu. “Pode entrar”.

Qual não foi minha surpresa quando o Dr. C aparece, meio roliço, de fraque, cartola e com uma barba e olheiras de cinema mudo.

No meio da conversa, enquanto trocava as pernas por debaixo da escrivaninha, ele me explicou:

“Eu posso dar a você a chance de mudar a história. Mas você deve entender as consequências disso”.

“Ué, e quais seriam as consequências disso que o senhor está qurendo dizer?”, perguntei.

Ele foi taxativo:

“Ué, simplesmente mudar toda a crítica literária dos últimos cem anos. O que pode aconteceria com a Ilíada se Aquiles não matasse Heitor?”

“Bem, aí provavelmente. Aí não teria cavalo de Tróia”.

“E nem mesmo a Ilíada, nem Eneida, e muito menos Os Lusíadas”, completou.

“É mesmo” murmurei.

“E se Orfeu não tivesse olhado para trás quando saía dos infernos?”

“Eita, agora o senhor me pegou” respondi, intrigado.

“Muito bem, mas eu sei que você me entende. Eu tenho a solução para que o senhor mude a história, essa história. Mas cabe ao senhor saber se quer que a história seja mudada ou não”.

“Mas Dr. C (quase chamei ele de Dr. Caligari), eu tenho certeza que essa história pode ser mudada (parecia não escolher as palavras) Se o senhor está me oferecendo a oportunidade, então sabe qual é a minha escolha”

Enquando conversávamos, o ajudante do Dr. C parecia estar descendo com a Arca de Noé de um aposento fechado nos fundos do consultório. De repente, ele abre a porta, chega até o escritório e diz, grave, com uma voz de carrilhão:

“Está pronto”

Fomos até o tal aposento. Era uma sala vazia. No fundo, tapando a única janela, havia um grande baú, com uma porção de cabos coloridos entreligados a partir do teto, parecendo um misto de confessionário e aquelas enormes caixas de orgones do Dr. Reich.

“Mas. Mas que diabos é isso”, gemi.

“Ah, é uma espécie de máquina do tempo”, riu de minha perplexidade o dr. C. “.

“Mas e qual é a finalidade?” quis saber.

“Bem, você pega o livro, e entra. Eu aciono aquela alavanca ali (aponta o braço miúdo para um console mal ajambrado (ou qualquer coisa que o valha à guisa de console) do outro lado do quarto, de onde saem todos os fios que vão parar na cimeira da caixa). Aí você vai parar dentro do conto ou do romance que quiser”

“Olhe, acho melhor eu…”

“Veja bem” ele me atalhou. “Se você veio aqui é porque sabe que eu posso lhe ajudar. Se eu procurei o senhor, é porque eu sabia que o senhor sabia que eu poderia lhe ajudar. O senhor não tem escolha. Sei que o senhor irá fazer como naquele dia: vai me dispensar e depois irá arrepender-se. Dessa vez, não poderei fazer mais nada pelo senhor”

“Você está querendo me dizer que qualquer um que entrar ali pode virar personagem de qualquer livro?”

“Mas é claro”, ele riu. “Ou você acha que. O que você quer ser? Riobaldo? Orlando? El Cid? Quer conhecer o Paraíso com Virgílio? Ou conhecer a cova de Montesinos com um pangaré? Ou”.

“Espere, então eu aceito”, respondi. “Mas você tem certeza que eu não vou acabar sendo desintegrado ou. Sei lá, acabar num conto do Murilo Rubião ou pior, num livro de auto-ajuda?”

“Dou-lhe a minha palavra”, respondeu. “Você vai para a “Missa do Galo”

Peguei meu pequeno volume de contos do Machado de Assis (aquela coletânea da Ática, que a gente lia no colégio). Dr. C foi até o console. Minha última visão antes de ver um clarão e perder os sentidos foi a figura impassível do (ajudante parecido com o) Cesare me olhando, como se estivesse em transe.

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Quando acordei, estava deitado num catre, num quarto em estilo colonial. Levantei-me, procurei um espelho. Nem pude acreditar: eu havia me metamorfoseado em Sr. Nogueira! Ou seja, estava em 1862, na casa do escrivão Menezes. Olhei para o relógio. Quase onze horas! Não sei se era realidade ou eu estava sonhando. Mas a verdade é que eu estava dentro do conto do Machado de Assis!

Meti-me na sala de frente e fui-me às aventuras. Eis que, sem que eu esperasse, irrompe D. Conceição, de roupão branco, mal apanhada na cintura. A visão que eu tive foi indizível. Ela era mais bonita na realidade do que no livro!

“Ué, o senhor não foi?”

“Ué”, respondi”. “É cedo ainda, mas a hora vai chegar”.

Fiquei pasmado, olhando D. Conceição. Os mesmos olhos de quem dissimulava o sono, provavelmente esperando por mim.

“Que cousa estranha ficar acordado na Noite de Natal. Não tem medo de fantasmas?”

“Bem, acho que não”

“E o que você está lendo? Não é o Dumas Pai”

“Ah, não, esse aqui é uma coletânea do Machado de Ah, não, esse aqui? Acho que é do Dumas Pai, mesmo, que cabeça a minha!”

“Então gosta de livros?”

“Claro”

“Já leu a Moreninha?”

“Ah, li no colégio há muitos e muitos anos, nem me lembro muito bem da história…”

“Como, se ele saiu faz pouco tempo?”

“Ah, sim, não, é que eu li como se tivesse livro há muitos anos”

“Ah, bom”, respondeu. “Eu gosto de ler mas não tenho tempo”. E ficou me olhando.

Ficamos nos olhando (o silêncio da sala só era interrompido por um camundongo, lá no outro aposento).

Ela riu. “Devo estar atrapalhando”

“Não, não, não! Muito pelo contrário”

“Se perder a noite, não vai acabar dormindo de dia?”, perguntou.

“D. Conceição”, respondi. “Tenho sonhado acordado todos os dias”

“Ah, se eu não dormir não funciono de dia. Estou ficando velha!”

Não, d. Conceição, a senhora ainda é muito jovem, tem a vida pela frente”

Ela sorriu; súbito, levantou-se e pôs-se a flanar pelo soalho. Enquanto parecia fingir arrumar aqui e acolá alguma desordem pela sala, não reparou que eu havia ficado vermelho. Então voltou, ainda sorrindo.

“A senhora sabe, nunca pude sair de noite aqui na Corte. Seu Menezes vive indo para o teatro e acho que, no fim, isso é meio sem sentido. Então achei que hoje fosse uma ocasião especial. Mas.”

“Mas?”

“Mas é que, quando a senhora saiu, eu cheguei a conclusão que todas as missas são iguais. A senhora não concorda?”

“Também acho”

E ficou me olhando, curiosa, com o rosto entre as mãos e os cotovelos na mesa. A vista não era incomum para mim. Mas sei que, como que numa transfiguração, aquela seria a visão mais bela que eu jamais teria presenciado.

Longo silêncio. Então ela me perguntou:

“Você parece bobo, parece apaixonado. Gosta de alguém?”

“Quem, eu? Não”

“Ninguém?”

“Bem, gosto, ou acho que gosto. Na verdade, gostava, mas acho que ela não gosta de mim, deve me achar muito criança…”

“Ué, e como ela é?”

“Bem, ela parece uma personagem do dr. Macedo. Tem olhos bonitos, que olham bem nos olhos da gente, como se lesse os pensamentos.

“E o que mais?”

“Ela parece. Parece sonhadora mas tem um espírito bastante maduro para a idade mas, ao mesmo tempo, tem uma candura de menina, de menina que espera…”

Silêncio. Ela sorri. “E que mais?”

Bem, ela tem uns olhos grandes, uns olhos castanhos e enormes de moça que sonha, que adivinha, que indaga, que parece não saber de nada, mas certamente sabe de tudo e de tudo que gira à sua volta. Ela é tão sábia que eu diria que parece que entende até a linguagem das gaivotas. Tão apaziguada, tão invisível, mas que parece guardar um segredo no coração. Ou parece resignar-se com a vida que vive, mas sabe que existe um mundo inteiro lá fora á sua espera”.

“Hum”, diz Dona Conceição, como se retesse as palavras que ouvira. “Então ela realmente deve ser muito bonita, não é?”

Eu sorri, comovido.

“Bem, Dona conceição”, ciciei. “Ela é bonita… Mas. Mas ela não se compara à senhora”

Nisso, seu rosto mudou, como que perplexa, quase que transfigurada. Ficamos os dois olhar perdido no do outro. Eis que, de repente, alguém bate na janela:

“Missa do Galo, Missa do Galo!”

“O seu amigo chegou”, respondeu, ainda com a expressão exangue.

“Mas”

“Missa do Galo, Missa do Galo!” insistia o vizinho.

“Não se faça esperar. A culpa foi minha, que retive o senhor aqui. Adeus”

Tudo acontecera num átimo. E lá se foi ela rumo a seus aposentos, pisando mansinho.

Ainda chocado e confuso, ganhei a rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja, como um condenado pela segunda vez.

Desculpe, Dona Conceição. Dessa vez, a culpa foi minha.

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