A “divisão da direita”

Marcelo Lima
Nov 7 · 7 min read

Existe no Brasil um novo termo chamado de “divisão da direita” propagado por pessoas de diversos espectros políticos. Devemos neste momento nos apegar ao termo utilizado, afinal o que é esta tal de “divisão da direita”?

Ao se utilizar de algum termo precisamos, antes de utilizá-lo, definir o que este termo significa e em que contexto está sendo utilizado. Dada esta indagação vamos aqui nos ater a apenas alguns contextos atuais onde o termo está sendo utilizado.

Um dos fatores primordiais deste fenômeno atual, de menor estatura, está nas críticas ao governo — autodeclarado de centro direita pelo próprio Presidente Bolsonaro. Devemos, neste momento, nos ater no cerne deste movimento que são as tais críticas: Esta crítica ou está sendo feita de maneira propositalmente isolada ou está sendo feita de maneira pontual abrangendo o todo das ações deste governo de turno?

Presidente Bolsonaro: “Macron é de esquerda e eu sou de centro-direita”

Um destes casos atuais acontece quando se dá onde apoiadores da então candidatura de Bolsonaro estão, hoje, apenas e somente tecendo críticas ao governo de turno.

Neste contexto devemos verificar quais são as críticas que estão sendo feitas, tendo como omissão, proposital ou não, todas as ações benéficas efetuadas pelo governo nestes últimos 10 meses.

Existem pessoas que criticam alguns pontos do governo sem se furtar a explicitar que são críticas dentro de uma enumeração de pontos positivos alcançados, e se percebe nelas o desejo genuíno em alcançar uma plenitude de ações benéficas ao país.

O “Isentão”

Há em outro grupo uma retórica muito utilizada: a isenção de opinião acerca deste governo de turno, tendo como omissão proposital a situação política vivida no Brasil nas últimas duas décadas. Este “isentismo” é sempre acompanhado de jargões sobre apoiar o “bem do Brasil” ou sobre “não ter políticos de estimação”.

Neste comportamento podemos notar uma afetação de superioridade vinda do emissor da “opinião isenta”, onde não raramente se nota a falta de explicitação sobre a posição deste dentro de uma régua ideológica, onde normalmente encontramos retóricas como: “não sou de direita nem de esquerda, sou à favor do Brasil” ou ainda “não quero saber sobre esta polarização direita x esquerda, quero lutar contra a corrupção”. Quando ouvimos ou lemos este tipo de discurso percebemos nela uma total falta de visão, proposital ou não, sobre as políticas nocivas que a esquerda praticou no país nas últimas duas décadas.

Estas pessoas que se utilizam deste expediente são confundidas como sendo cidadãos “de direita” aos quais estariam dentro de uma divisão de um movimento de direita brasileiro.

A Direita no Brasil

Neste ponto devemos observar o fato de nunca ter existido “direita no Brasil”. Esta afirmação se dá pelo fato do Brasil, desde a redemocratização, nunca ter tido ao menos um movimento organizado ou aos menos autodeclarado como sendo de direita.

Como muito bem dito por Olavo de Carvalho: “o Brasil, mesmo tendo população majoritariamente conservadora, não possui hoje nenhum canal de TV, revista ou jornal declaradamente conservador”. Em outro comentário Olavo de Carvalho disse: “Não há nas universidades brasileiras nenhuma tese anti-comunista”.

Neste caso poderíamos concluir que se já tivéssemos um movimento organizado de direita, nossas universidades teriam teses anti-comunistas mesmo que em pouca quantidade.

Durante o governo petista e também durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff algumas pessoas, grupos e movimentos políticos foram às redes sociais e protestos de rua com discursos contundentes contra o petismo e, por vezes, contra o comunismo.

As eleições de 2018

Nas eleições de 2018, com a ascensão da candidatura de Bolsonaro, estes mesmos grupos apoiaram esta candidatura de maneiras distintas tendo desde movimentos declaradamente pró Bolsonaro até movimentos tímidos que alegavam que esta era a única opção para a retirada da esquerda e, principalmente, do PT do poder executivo federal brasileiro.

Após as eleições, esses grupos, agora sem ter um objetivo hegemônico e urgente como eram as eleições, principalmente durante o segundo turno, começaram a explicitar suas visões políticas e também suas convicções sobre como o governo deveria conduzir sua política executiva e partidária.

Neste ponto podemos destrinchar as rupturas e acontecimentos responsáveis pelo surgimento do termo “divisão da direita”, vamos assim descrever os principais grupos:

  • Os que tiveram uma percepção errônea sobre o que um representante do maior cargo executivo federal brasileiro têm condições de fazer sem causar efeitos negativos ao Brasil sobre seus atos;
  • Os que acreditavam que seriam “pagos” por seus apoios durante a campanha eleitoral, porém quando perceberam que não receberiam cargos ou não conseguiriam fazer indicações a cargos de segundo e terceiro escalão, passaram a fazer ou oposição direta ou trocar suas posturas de “apoio ao governo” para “quero apenas o melhor do Brasil”;
  • Os que imaginaram que o mesmo discurso duro e combativo do candidato se perpetuaria quando o mesmo se sentasse na cadeira presidencial, porém devemos nos lembrar que o cargo executivo federal dentro do nosso atual sistema presidencialista tem como principal forma de governar o norteamento e o envio de projetos à Câmara dos Deputados que em seguida, no caso de aprovação prosseguirá com o debate e concordância do Senado.

O Congresso Nacional

Maurício Marinho, ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, é flagrado recebendo propina de dois empresários interessados em informações sobre como fornecer material de informática. Foto: Reprodução da TV / 16.05.2005

Neste sistema presidencialista, tão divulgado na grande imprensa como “Presidencialismo de coalizão” tem em seu Congresso parlamentares que são filiados à vários partidos políticos que possuem os mais variados espectros políticos.

Nas eleições de 2018 o congresso teve uma renovação de 52%, a maior dos últimos 20 anos, sendo assim devemos fazer duas abordagens sobre esta renovação:
Primeira: Metade dos parlamentares são novos, o que não significa necessariamente que esta renovação em si só seja algo bom, pois dentro deste grupo há parlamentares de direita e conservadores, porém há outros declaradamente de esquerda e ainda outros com projetos próprios de poder apenas pelo poder.

Segunda: Dentro da outra metade que já se encontrava lá existem poucos e bons parlamentares e uma grande parte que já se encontrava no esquema de compra de votos petista, tendo até mesmo alguns indo à tribuna reclamar que o Congresso não passava de um mero “carimbador” de MP’s do executivo, fora ainda aqueles que se “poupavam” de entrar em conflitos mais arraigados dentro do parlamento.

Agora que temos claro a realidade da composição do atual Congresso onde o presidente deve interagir, devemos observar que esta interação é totalmente diferente das que foram efetuadas nas últimas duas décadas. O plano executivo federal é responsável pelo norteamento das políticas públicas do país, e este deve fazer uma interação independente e harmoniosa com o congresso, conforme a Constituição Federal, em seu artigo 2º.

A ruptura com o establishment

Durante a campanha presidencial do então candidato Bolsonaro, este sempre afirmou que não iria fazer como seus antecessores que, após as eleições, efetuavam em reunião fechada a partilha dos ministérios entre os líderes partidários.

Neste aspecto, existem grupos de “isentões” que tecem a retórica de não apoiar as “posturas do presidente” tendo ao mesmo tempo apoio aos seus ministros tais como: Paulo Guedes no Ministério da Economia e Sérgio Moro no Ministério da Justiça. Podemos perceber aqui a ingenuidade de se supor que o Sérgio Moro e Paulo Guedes poderiam permanecer num governo substituto sem a presença de Jair Bolsonaro, pois estes estão dentro de um projeto de país proposto por Bolsonaro não fazendo parte de um projeto partidário ou de poder.

Como pudemos ver até então, ainda hoje possuímos um congresso parte corrupto, parte ideológico e parte com projetos pessoais de poder, e é com este congresso que o primeiro presidente declaradamente conservador de centro-direita deve lidar.

Com esta descrição da realidade atual devemos perceber que não há espaço para um purismo de idéias onde o Brasil, ao trocar apenas o executivo federal esquerdista para a centro direita, teria seus principais problemas resolvidos, pois a via disponível para isto é o poder legislativo sob os auspícios do poder judiciário.

Assim então podemos perceber o “muro” que Bolsonaro tem de transpor para que seu projeto de país livre e próspero possa transitar de maneira positiva dentro deste Congresso descrito até aqui.

Podemos concluir então que o termo “divisão da direita” é um termo que não consegue existir em si mesmo pelas seguintes razões:

  • Não existe ainda no Brasil nenhum movimento organizado ou partido político minimamente auto-declarado de direita;
  • Não existe nenhum jornal, canal de TV ou revista de viés conservador;
  • Não existe nenhuma tese anticomunista nas universidades brasileiras.

Podemos agora perceber os movimentos conservadores e de direita que estão surgindo de maneira embrionária nos últimos anos os quais estão começando a tomar forma e estão com o objetivo de levar o conservadorismo às massas, subjugando a grande imprensa e os “isentões” que tem tido sua credibilidade desgastada pelo seu distanciamento de visão de mundo com a população média sendo denunciada pelas novas mídias independentes que conseguem ter uma relação próxima com a realidade dos fatos.

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