A bunda doía da pressão mesmo com a cadeira macia. 
Eram as horas. 
Décadas haviam se passado.

E a posição não mudava. 
Ficar imóvel no trabalho fazia sentir o peso da estagnação da vida inteira. 
Olhava por entre as frestas da janela das persianas frias e amareladas do escritório, cheias de poeira. 
Dava pra ver do outro lado do beco, naquele dia nublado, (ou ‘enuviado’ como gostava de chamá-los), uma janela de onde saía uma forte luz branco-azulada. Dentro dela havia uma pequena sala de aula, onde via professores que pareciam fazer acrobacias quase encostando suas costas contra o quadro branco. 
Parecia que os movimentos corporais, seus gestos fortes e veementes, iriam fazer os alunos, que ficavam invisíveis aos que olham de fora, entender melhor a matéria.
“São aulas de inglês” — uma voz dizia em sua cabeça.
O som característico e metálico do virar da maçaneta e do abrir de uma porta anunciava que outra ronda de opressão se iniciava.
No passado aquele som fazia o coração disparar e os olhos fixarem na tela. 
Não mais.
Este passarinho não tinha mais apego à gaiola.
Quando os olhos voltavam à luz da tela branca cheia de letras do monitor podia sentir o fundo de seus olhos doendo.
Novamente a visão desviava para a esquerda, para longe da tela.

Lembrava de um local onde nunca havia estado.

Uma cidade pequena por onde passava um rio ou um lago, não importa.
Via as nuvens e as montanhas. 
Via a neve da montanha em sua mente e podia sentir nos pés a sensação da neve deslizando sob a superfície polida de fibra, a sensação de movimento, o vento frio batendo no rosto, o ligeiro medo ao olhar para baixo na montanha misturado com o deleite daquele balé glacial.
Nesses momentos via, sentia melhor o cheiro da vida de olhos fechados. 
As ilusões se tornam mais vívidas do que aquela realidade e do que as paredes brancas que costumava chamar de grades.

Sua imaginação agia como uma fogueira à qual se aproxima as mãos durante o frio, para sentir o calor do fogo esquentando suas palmas, dedos e coração.

Queria atear o fogo de sua imaginação nos carpetes e cadeiras daquele escritório.

Sentir o calor da vida pulsando novamente em suas veias, aspirando e expulsando ar de seus pulmões para melhor consumir a vida.

Por uma vida mais parecida com um carro de corrida veloz, que sopra com força o vento no rosto, joga pra trás e exige sua presença imediata.

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