Sobre enfrentar os medos

Durante o ano novo eu vi um vídeo do pai~ da Estopinha explicando como lidar com os animais com medo dos fogos de artifício. Acho que assisti só por causa da Estopinha — que estava ali sentadinha como se tivesse numa reunião de negócios, apenas assentido as informações dadas –, afinal eu não tenho cachorro, na minha casa mal dá pra ouvir os fogos.

De qualquer forma, foi muito útil assistir àquele vídeo, porque ele me ensinou uma coisa muito interessante sobre superproteção. Ele explicava no vídeo que os responsáveis dos cachorrinhos não devem agir de maneira superprotetora, tentando proteger dos fogos, falando numa voz assustada, ou muito protetora, pois os responsáveis são a referência deles e agindo assim, você transmite a ideia pro bichinho de que realmente existe um motivo para temer, em vez de tranquilizá-los.

Isso é interessante porque eu fiquei pensando nos meus medos, nos medos dos outros e nos sonhos recorrentes. Implementei essa estratégia pra tudo, principalmente com minhas gatas e talvez seja só impressão minha e coisa sem ligação, mas minhas gatas estão muito menos amedrontadas desde então. Tofu que se escondia ao menor barulho, Minerva que não saía de trás de um refúgio, ambos indo na sala onde estão as visitas, deitando no chão, oferecendo a barriga molemente, ou ainda cheirando e tentando entender, no caso do Tofu, que ainda é mais arredio. A Christie brava, mas sem gritaria durante o corte das unhas, sem fugir. Eu sempre atenta à modalidade da voz e minha expressão, que é o que eles melhor entendem: não há nada a temer, está tudo normal e corriqueiro.

Fiquei pensando nas referências e como eu tento ser minha própria referência. Em vez de permitir meu medo e justificá-lo, tentar lidar da melhor maneira. Lembro de outras amigas com medo de avião que também ficavam irritadas com o fato de que as pessoas no avião parecem tão tranquilas, lendo jornal como se nada estivesse acontecendo, mas agora percebo o quão importante é essa referência, que se as pessoas estivessem assustadas também, ou gritando, eu ficaria ainda mais amedrontada.

Então é isso… Finalmente entendi meus sonhos recorrentes em que faço algo escatológico em público, num banheiro exposto, na frente de todo mundo, e no mesmo momento em que isso acontece eu tento pensar e agir como se não fosse nada. Falo pra mim mesma: agora já foi! Está feito, e daí?

Tento lidar assim com meus medos. Não gosto de avião, mas tenho que pegá-los e ir pra longe. Então eu vou e se morrer, morreu. Tento me convencer disso: eu vou morrer mesmo um dia e tenho que aceitar isso, e daí? Vale pra envelhecimento também. Vale pra rompimentos. Me dá uma sensação de liberdade, de auto-controle e imunidade.

Ainda tenho medo da água dos rios e mares, de não ver meus pés, de não saber o que está ao meu redor. Afinal tudo que disse aqui é sobre auto-controle. Mas um dia espero que mesmo isso eu consiga enfrentar. Não pelo mar, detesto o mar, não tenho o menor gosto, menor necessidade. Mas quero tomar banho de cachoeira sem desconforto e ansiedade. E vou.

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