{Crônica} Poirot, um cartão-postal e a cerveja de coco

Márcia Silveira
Mar 17, 2018 · 3 min read
A encantadora cidade de Bruges. [Foto: arquivo pessoal]

Durante a adolescência eu li muitos livros da Agatha Christie. E, como todo mundo que lê as obras da dama do crime, virei fã do seu personagem mais famoso, o detetive belga Hercule Poirot. O personagem fazia questão de corrigir qualquer um que dissesse que ele era francês. Non, non, apesar de falar francês, ele era belga.

Mesmo fã de Poirot, eu nunca havia realmente parado pra pensar sobre a Bélgica. Meu sonho sempre foi conhecer a França, minha paixão era Paris. A Bélgica era, para mim, um lugar muito distante, feito, sei lá, a Groenlândia, que eu provavelmente nunca iria conhecer. E fim de papo. Fica claro aí que meus conhecimentos geográficos eram parcos, para não dizer nulos.

Com 18 anos fui fazer curso de francês , com a intenção de realizar meu sonho de conhecer Paris — eu sabia que realizaria, só não sabia quando. Um dos professores do curso, chamado Moley, era um missionário africano (não me lembro de que país), que estava passando um período no Brasil e, para se manter, foi dar aulas de francês. Uma pessoa com quem eu adorava conversar — em francês, claro, pra treinar.

Um dia, Moley se despediu. Disse que sua missão no Brasil havia terminado e ele agora iria para, imaginem, a Bélgica. Pensei: mas por que tão longe? E lá se foi Moley, mon professeur, não sem antes me presentear com um livro de salmos, no qual eu li na dedicatória: Jesus t’aime. Moi aussi.

Algum tempo se passou, até que o carteiro me trouxe uma carta cujo remetente era Moley K., que agora morava em Londres. Dentro do envelope, porém, havia um cartão-postal não da Inglaterra, mas sim com a foto do prédio da Bolsa de Valores de Bruxelas, capital da Bélgica, aquele lugar longe, que eu nem pensava em conhecer. Infelizmente, depois eu e Moley K. perdemos o contato.

Passaram-se os anos (muitos deles) e chegou a hora de realizar aquele sonho de conhecer Paris. Gastei todo o meu francês — que não era muito a essas alturas — e foi tudo lindo como eu imaginei. Dois anos depois voltei a Paris, mas dessa vez com uma deliciosa surpresa (porque não estava programada): uma viagem de bate e volta a Bruxelas. Afinal, ela não ficava lá pros lados da Groenlândia, mas sim ali, a 1 hora e meia de trem de Paris.

Eu vi o prédio da Bolsa de Valores, aquele do cartão-postal do Moley; fiquei encantada com a beleza da Grand Place, a praça central de Bruxelas, considerada uma das mais belas do mundo; comi batata frita com maionese como se tivesse feito isso a vida inteira e me surpreendi ao ver que o mais conhecido ponto turístico da cidade é um pequeno monumento em bronze de um menino urinando, o Manneken Pis. E como não amar o colorido da street art belga, com lindos e enormes desenhos do personagem Tintim?

A Bélgica tem mais de 1.500 cervejas e esse é só mais um belo pretexto para voltar lá muitas e muitas vezes. Fiquei tão encantada por Bruxelas e por conhecer um lugar que nunca imaginei, que acabei voltando no ano seguinte com mais tempo, não só para as cervejas, mas para conhecer outra cidade belga: Bruges. Também encantadora, também linda, também cervejeira. Foi onde tomei a maior variedade de cervejas, incluindo uma de coco, a Mongozo.

A cerveja de coco — achei enjoativa. [Foto: arquivo pessoal]

Eu realmente nunca havia pensado em conhecer a Bélgica, mas acabou acontecendo. E me lembrei do professor Moley e do detetive Poirot, que eram a minha referência de Bélgica anteriormente. Ao me encantar com as casinhas que parecem de boneca e com os cenários que parecem saídos de filme, entendi o porquê do Poirot ter tanto orgulho de ser belga. Oui, Monsieur Poirot, a sua Bélgica é linda e me encantou. Voltarei, sem dúvida nenhuma, para conhecer outras cidades belgas. Afinal, ainda tenho cerca de 1.478 cervejas para experimentar.

M;


Márcia Silveira

Written by

Mãe do Bruno e da Daniela. Escritora | Revisora. Pós-graduada em História da Arte. Estudante de Filosofia. Escrevo sobre livros no Diário do Rio.✍🏽

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