A relação entre a mitologia e o feminismo

Márcia Silveira
May 31, 2018 · 4 min read

Foi num passeio pela livraria que vi pela primeira vez o livro “Mulheres e Deusas” e logo fiquei encantada com a capa, que achei muito bonita. Depois, lendo a sinopse, não resisti e comprei. Comecei a ler já no ônibus, voltando para casa.

Renato Noguera, o autor, é doutor em filosofia e pesquisador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Leafro) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Neste livro, ele analisa mitos gregos, iorubás, judaico-cristãos e guaranis, partindo das histórias de personagens femininas dessas mitologias, para entender como essas narrativas ajudaram a formar a identidade da mulher no mundo de hoje.

Logo de início, Renato deixa claro que entende as limitações de uma análise sobre as mulheres feita por um homem. Diz que fala “sobre” as mulheres, e não por elas. Ressalva importante nos dias de hoje, em que se discute tanto o “lugar de fala”. O objetivo do livro, segundo Renato, “é propiciar um debate, sabendo-se deslocado do lugar de fala feminino e sem nenhuma pretensão de ser porta-voz masculino de mitos femininos.” Ele não pretende falar em “nome das mulheres”, o que, segundo ele, consistiria numa desonestidade intelectual e política.

A partir da análise dos mitos de Atena, Hera, Oxum, Iansã, Eva, Lilith, Iara, Naiá, dentre muitas outras, fica claro que muitas crenças atuais sobre a mulher podem ser explicadas com essas narrativas. São histórias que envolvem beleza, inveja, insubordinação feminina (e castigo), supremacia masculina e muitas outras questões que ajudaram a construir o papel da mulher nas sociedades. É sobre esse papel imposto às mulheres que Simone de Beauvoir fala em sua famosa frase: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”

O livro conta, por exemplo, o mito grego sobre a rivalidade entre Atena, Afrodite e Hera, que, instigadas pela deusa da discórdia, Éris, disputaram para ver quem era a mais bela do Olimpo. O juiz dessa disputa foi Páris, príncipe de Troia, que escolheu Afrodite como a mais bela, pois ela havia lhe prometido em troca o amor da mulher mais bela da terra, Helena — fato que desencadeou a guerra de Troia.

A rivalidade entre mulheres é destaque também na mitologia iorubá, com Obá, Iansã e Oxum. Alguns orixás masculinos, sentindo-se ameaçados pela união entre as orixás femininas, delinearam um plano para que as três se casassem com Xangô, orixá dos raios, dos trovões e do fogo. Assim foi feito e Obá, Iansã e Oxum passaram a disputar a atenção do marido, distraindo-se de outros assuntos.

Outro exemplo encontrado no livro é o mito judaico-cristão que conta a história de Lilith, que teria sido a primeira mulher de Adão, nascida do mesmo barro e que, por isso, não se sentia inferior a ele. Ela foi, segundo o autor, deliberadamente retirada da Bíblia por sua insubordinação — recusava-se a se deitar sob Adão durante o sexo. Uma atitude que não poderia ser aceita numa religião patriarcal.

Dentre os mitos guaranis, destaca-se o de Iara. Seus irmãos planejaram matá-la por ciúme dos cuidados dos pais com ela. Porém, Iara, que tinha grande capacidade de ouvir, enxergar e perceber o que se passava ao seu redor, soube do plano de seus irmãos e os matou. Seu pai, sabendo do acontecido, decidiu que deveria castigá-la e então ela fugiu. Após uma perseguição que durou vários dias, o pai de Iara a amarrou e a levou ao encontro dos rios Negro e Solimões, onde ela se transformou na protetora do reino das águas.


No mesmo período em que estava lendo esse livro, fui assistir a uma palestra em comemoração ao primeiro ano da revista Quatro Cinco Um. Estavam presentes os editores da publicação, Fernanda Diamant e Paulo Werneck, além do filósofo Eduardo Jardim e da roteirista, escritora e feminista Antonia Pellegrino.

A fala de Antonia sobre a importância do feminismo me fez lembrar muito do livro de Renato Noguera. Foi bom refletir sobre a importância de nós, mulheres, nos movimentarmos contra as imposições que pesam sobre nós (e que estão presentes nas narrativas mitológicas do livro). Não para sermos melhores que os homens, mas para termos os mesmos direitos, a mesma voz. Nada mais justo.

Sobre “lugar de fala”, por exemplo, Antonia deixou claro que essa expressão não quer dizer que apenas quem sofre algum tipo de dor (preconceito, perda, etc) pode falar sobre o assunto, mas sim que há o momento certo para cada um se pronunciar sobre determinado tema. Numa manifestação de mulheres negras pela morte de uma mulher negra — esse foi o exemplo que ela deu — , quem tem voz são essas mulheres. Um homem branco pode participar da manifestação? Sim, apoio é sempre importante. Mas, segundo Antonia, não faz sentido, num caso desses, ele pegar o microfone no meio da manifestação para expressar sua opinião. O lugar de fala ali não é dele. É questão de bom senso, de discernimento, de saber quando você deve tomar a palavra e quando deve ficar quieto, ouvindo. Aliás, como deveria ser sempre e com tudo na vida.


O livro de Renato Noguera ajuda muito a refletir sobre estas questões do feminino que estão tão em voga no momento. A disputa entre iguais — como no mito de Atena, Afrodite e Hera — só enfraquece o movimento e dá mais lugar às tantas crenças e estereótipos equivocados que o senso comum possui sobre as mulheres, dando mais poder ao patriarcado. Daí a importância da sororidade — a irmandade entre mulheres. É juntando nossas forças que conseguiremos seguir em frente e fazer nossa voz ser ouvida.



:)

Márcia Silveira

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Mãe do Bruno e da Daniela. Escritora | Revisora. Pós-graduada em História da Arte. Estudante de Filosofia. Escrevo sobre livros no Diário do Rio.✍🏽

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