Não existe mês mais longo que dezembro

Márcia Silveira
Dec 26, 2017 · 3 min read

Dezembro, ah, dezembro… É a época dos pisca-piscas, dos papais noéis de todos os tipos, dos shoppings lotados e é também quando surge a velha e importante discussão sobre o arroz com passas ou sem. Tudo isso se inicia, pra falar a verdade, em meados de outubro. A partir daí é tudo um grande dezembro. Li em algum lugar que novembro é um mês que ninguém respeita e fui obrigada a concordar. Em novembro já é Natal faz tempo, pelo menos na Leader Magazine.

Eu não gosto, confesso. Quando vejo surgirem nas lojas os primeiros enfeites, sinto até arrepio. E quando aparece um, não tem jeito, o espírito natalino se prolifera e para onde se olha tudo está vermelho e verde, com tons de prata e dourado. Um horror. Dia desses vivi o auge do que o Natal faz com as pessoas e o comércio: fui à sessão de papelaria de uma loja de departamentos e não havia um só caderno, uma só caneta, nada de lápis — todas as prateleiras estavam tomadas por guirlandas, presépios e todo tipo de enfeite natalino.

De modo que, mesmo quem não gosta, é quase que obrigado a entrar no clima. Ou ficar trancado em casa, no escuro, até que janeiro chegue. Gostaria muito de poder escolher a segunda opção, mas infelizmente não é possível. Então sigo por aqui fazendo a minha parte: rezando todos os dias para que dezembro passe o mais rápido que puder e para que à meia-noite e um minuto do dia primeiro todo esse clima de festa e esses enfeites tenham desaparecido. Ilusão, eu sei. Mas não custa tentar. Vai que Papai Noel me escuta.

Não foi sempre assim, claro. Quando criança eu adorava as festas de fim de ano. Morava numa casa de vila e essa época de férias era sinônimo de muita diversão. Sem falar nos pedidos para o Papai Noel. Eu achava o máximo poder pedir qualquer coisa pra ele. Isso era incrível! Ficava tão animada, que mal percebia que minha mãe me ajudava a direcionar essa qualquer coisa para qualquer coisa que ela pudesse comprar — truque que a gente aprende instintivamente quando se torna mãe/pai. Depois, quando descobri o segredo do bom velhinho, fiquei um pouco decepcionada. Então não havia nada de incrível?

Ainda assim, era uma época boa. O dia 24 logo cedo já cheirava a pernil, rabanada e todas as coisas gostosas que o Natal traz. No fim da tarde eu colocava uma roupa nova e aguardava ansiosa pela ceia e pelos presentes — embora nem sempre conseguisse ficar acordada. Fazíamos amigo oculto entre os moradores da vila e a troca dos presentes era sempre divertida.

Difícil dizer quando foi que deixei de gostar das festas de fim de ano. Só sei dizer que agora, quando chega dezembro — ou seja, lá pra meados de outubro -, minha vontade é de dormir até que o ano vire. Pensando bem, seria uma pena perder as rabanadas, já que elas só aparecem nesses dias. Uma injustiça, eu acho. Rabanadas deveriam se tornar típicas da Páscoa, das festas juninas, do dia dos namorados.

- Onde vamos comemorar, meu amor?

- Naquele restaurante que tem umas rabanadas incríveis!

Na minha casa, os enfeites de Natal só aparecem porque meu marido e meus filhos gostam e fazem questão. Minha única aquisição para a decoração foi um Papai Noel fotógrafo, que vi, achei fofo e não resisti. O resto — árvore e afins -, eu dispensaria.

Mas, se não sei dizer quando o fim de ano se tornou um problema, sei que ano passado ficou ainda mais difícil. Minha mãe nos deixou no dia 23 de dezembro e eu tive certeza de que não voltaria mais a gostar deste período do ano. Não tem rabanada, pernil ou presente que diminua a saudade e evite a tristeza. Era na casa dela que eu passava todos os natais.

O que me resta? Continuar minhas orações para que os últimos dias deste longo dezembro passem bem rápido e chegue logo janeiro. Duvido que minhas preces façam adiantar o relógio, mas continuo tentando. Vai que São Nicolau me escuta.

M;

***

{Bom fim de ano pra todo mundo!}

Mãe do Bruno e da Daniela. Escritora | Revisora. Pós-graduada em História da Arte. Estudante de Filosofia. Escrevo sobre livros no Diário do Rio.✍🏽

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