Proibida para menores

Márcia Silveira
Feb 14, 2018 · 2 min read

Cafezinho vai, cafezinho vem, muitas histórias surgiram, principalmente as de infância. João, amigo de faculdade que conta suas memórias como ninguém, dividiu comigo um caso acontecido nos longínquos anos 80.

Contou que, criança, morava no subúrbio, na casa de número seis de uma vila com oito. Na última casa morava uma senhora de seus 80 anos, avó de nove, bisavó de três. Dona Eulália estava sempre a varrer a frente de casa e a conversar com os vizinhos, inclusive com aquela que considerava favorita: dona Josefa, a mãe de João.

Dona Josefa era simpática, mas sem euforia. Viúva, tomava conta apenas de sua própria vida e dos três filhos, dois meninos e uma menina. Por ser tão discreta, era a vizinha preferida não só de Dona Eulália, mas de todos os moradores da vila.

Conta João que todo ano, terminado o carnaval, Dona Eulália levava para Dona Josefa uma revista, com o cuidado de enrolá-la para que ninguém pudesse ver a capa. Uma vez João a ouviu recomendar: “Cuidado com as crianças.”

Todos os anos, Dona Josefa pegava a revista e colocava na prateleira mais alta da estante da sala, longe do alcance das crianças. João diz que seus irmãos, dois e quatro anos mais velhos, nunca mostraram interesse na revista. Mas ele, todo ano ficava intrigado.

E criança intrigada, já viu. Põe a imaginação para funcionar. O que teria naquela revista? Algo assustador, ele pensava. Por isso as crianças não podiam ver. Imaginava que se abrisse a revista poderia sair de lá uma caveira. Eram o maior medo de João — as caveiras. Ou talvez a revista trouxesse algum monstro muito feio em suas páginas, o que faria com que as crianças não dormissem à noite. Uma foto do temido homem do saco, talvez. Fazia sentido, então, deixar a revista no lugar mais alto da estante. João nunca se atreveu nem a tentar pegá-la.

Passaram-se os anos, os carnavais e revistas, até que Dona Eulália, a vizinha, faleceu. João não viu mais nenhuma revista no alto da estante e achou que nunca resolveria aquele mistério.

Meu amigo havia esquecido completamente deste caso quando, um dia, já adulto, passou em frente a uma banca de jornal. Não era mais a revista de sua infância, mas estava lá para quem quisesse ver: uma atriz seminua, quase que vestida apenas de purpurina, desfilando na Sapucaí. E o título: “Tudo o que aconteceu no carnaval, com muitas fotos.”

“Claro”, pensou João, “era isso o que eu não podia ver: mulheres nuas.” E me confessou ter ficado um pouco decepcionado com tanta simplicidade. Preferia a criatividade de seus devaneios infantis. Preferia que fossem caveiras.


Márcia Silveira

Written by

Mãe do Bruno e da Daniela. Escritora | Revisora. Pós-graduada em História da Arte. Estudante de Filosofia. Escrevo sobre livros no Diário do Rio.✍🏽

More From Medium

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade