São Paulo para introvertidos? Yas, please.

Quem passa pela rua Augusta numa noite de sexta, e vê todos os grupos de todas as idades interagindo como se a vida fosse um grande e eterno rolê, pode pensar que bebi antes de escrever este texto. E a pessoa não estará completamente errada, mas este não é o ponto. O ponto é: por mais que São Paulo seja o paraíso dos modafucka go-getter de sangue no zóio e de apresentações de power point mais cortantes que a espada do He-Man, a cidade também é perfeita para quem só quer ficar de boas em sua introspecção.

Eu venho de uma cidade de 214 mil habitantes. Ok, não é exatamente uma aldeia na qual as yentas trazem as notícias de quem casou com quem, mas é pequena. Tem um shopping, uma rua “principal”, uma balada. Sair de casa significa encontrar a professora da primeira série, a mãe da primeira paixão platônica, a prima da vizinha da colega. Em resumo, sair de casa significa um inferno pessoal para os introvertidos. Entra em cena São Paulo, seus onze milhões de habitantes e os onze milhões de motivos para ser o paraíso de ~gente como a gente~. Quer alguns deles? Vamos lá.


Quando digo que gosto de ficar no meu canto, as pessoas pensam que sou uma ermitã que só sai de casa para votar. Talvez seja porque escolho as palavras erradas para explicar meus gostos. Mas a magia de São Paulo é que ela permite que eu fique no meu canto em diversos cantos. Posso caminhar por horas sem interagir com ninguém, ir aos diversos cinemas, praticamente morar nas livrarias… E ninguém parece em choque. Comer sozinha, lá na minha cidade, significa receber olhares de pena e/ou desconfiança porque afinal cadê seus amigos e namorados e filhos, coleguinha? Aqui? Aqui ninguém dá a mínima.

Em São Paulo, sempre cabe mais um. Mas não é coração de mãe, não. E isso é um alívio. Ir às compras na minha cidade natal significava ouvir histórias da atendente da farmácia, discutir os planos para o feriado com o caixa do banco, ouvir um “vai com Deus” do motorista do ônibus. Veja bem, eu não sou exatamente um robô sem coração. Eu aprecio simpatia. Mas evito small talk a qualquer custo. Sou péssima nisso. Termino falando bobagem ou parecendo antipática ou ambos. Em São Paulo não tem dessas [e a São Paulo a que me refiro é a do trabalhador brasileiro, não a do cachorrinho de madame que é mais mimado do que jamais serei numa vida inteira]. Comércio é comércio. Pede, paga, vaza. Ninguém tem tempo, ninguém tem paciência. Eventualmente você vai receber um sorriso desenhado no copo da Starbucks e o gesto vai para seu Instagram porque, de novo, não somos robôs. Mas não é a regra e esta é a beleza da coisa.

E olha que louco. São Paulo permite colocar o pé na piscina da socialização e tirar bem rápido, se você quiser. Trabalhando de casa, com colegas que estão em outros continentes, vez ou outra eu penso que seria uma maravilhosa ideia sair de casa, conhecer gente, interagir com um ser humano quando a Siri está ~indisposta~, essas coisas. Se você olhar o MeetUp, a cada dia milhares de pessoas mais ou menos desconhecidas estão se reunindo pra fazer alguma coisa juntas (meditação, prática de idiomas, bar hopping, etc). Participei de uma coisa do tipo. Encontro de gente louca por comida, afinal, the chosen people, com um único mantra: “Posso dar o fora no minuto em que ficar insustentável”. Não ficou. Foi bem legal, se você quer saber. Pretendo repetir? Fuck no. Mas o fato de não existir algo assim na minha cidade natal diminuiu consideravelmente a vontade de voltar pra lá. Isso faz sentido? Nenhum. Mas me deixa feliz.

E falando em conhecer pessoas, vamos falar sobre a magia que é abrir o Tinder e não encontrar seu primo? Seu tio? Seu rabino? Seu entregador de leite [brinks, minha cidade natal já saiu do século passado, pelo menos quando o assunto é entrega de leite]. Todos os problemas do app à parte, e são muitos, eu acho maneiríssimo o fato de oferecer carinhas novas pro swipe até as profundezas do infinito. Você só se dá conta disso ao viajar para uma cidade pequena, ver nove pessoas, jogar todas para a esquerda e depois pensar: “Ué? Quebrou? Os deuses do Tinder estão me punindo por ser muito cri cri?” e perceber que não é nada disso. Só não tem ninguém por perto mesmo.

E numa cidade desse tamanho, eventualmente você vai encontrar outros introvertidos. Obviamente, vocês não vão para a balada na Augusta, mas poderão trocar figurinhas sobre a existência em geral. Cada um de sua casa, claro. Não vamos forçar a amizade.

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