A sagrada pílula do Quase

Havia se livrado da pilula anticoncepcional havia uns três meses e estava quase se sentindo livre. Já podia sentir seu corpo mais livre de todos os julgamentos presentes à sua volta e quase, quase conseguia se sentir uma mulher inteira de novo.

Mas o quase era sempre o limite entre tudo.

Ainda estava tomando os anti-depressivos. Agora fazia 5 meses que eles lhe faziam companhia e ninguém sabia da sua existência. Então para começar mais um dia na sua vida ela tomou um anti depressivo, uma pilula azul clarinho da cor que ela gostava para fingir que estava tudo bem.

Às 11h da manhã resolveu tomar um Torcilax para a velha e companheira dor nas costas. O dia seria penoso. Quando entrou no trabalho às 14h o remédio da gripe já havia sido tomado, assim como o da anemia e o outro para enjoo, não conseguia se alimentar sem querer vomitar fazia uns 5 dias, mas estava tudo bem. Só que às 15:30h quando o dia já estava mostrando os primeiros sinais de problemas, resolveu tomar um pra dor de cabeça também só para garantir que tudo estaria bem.

Cerca de 20h, ela quase havia conseguido parar para comer um chocolate branco que gostava, assim como quase havia conseguido comprar o sapato que queria na promoção e quase tinha lido um pouco mais do livro para seu clube de leitura, estava quase alcançando suas metas quando percebeu que já havia tomado mais Pilulas do Quase do que devia durante o dia. Mas estava tudo bem.

Estava tudo bem, foi o que ela disse enquanto voltava para casa cansada e frustrada. Estava tudo bem, foi o que ela disse durante os outros quatro dias da semana em que trabalhou, leu, estudou, não ouviu sua banda preferida, mas fez tudo o que o cronograma da sua vida quase perfeita pedia.

E no final de semana, quando ninguém não estava olhando tomou mais uma Pílula do Quase e dessa vez chorou bastante se permitindo finalmente se sentir aliviada. Estava mentindo para tanta gente sobre tantas coisas que não sabia mais quem era ou o que lhe gerava felicidade. O Quase era a sua única certeza, e percebeu que estava se embriagando nas próprias dores e nas suas próprias soluções, incapacitada de pensar ou reagir, apenas queria sentar e desenhar toda a sua vida novamente, mas sabia que naquele momento não conseguiria.

Levantou-se e tomou uma cerveja, lá fora já era domingo de noite e não se lembrava de como havia passado os últimos dias. As dores nas costas voltaram, assim como a dor de cabeça e por fim, mesmo cansada optou por tomar mais uma dose de remédios, estava dopada. E estava tudo bem naquele momento, já que sua única certeza era que ela estava quase lá.

(autorretrato: cansada)

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