Você precisa assistir The Handmaid’s Tale

Série apresenta realidade distópica assustadora, e se estabelece como uma das melhores estreias do ano


Existem diversos fatores que podem ser levados em consideração antes de se assistir um produto audiovisual. Ir ver um filme no cinema ou começar uma nova série, por vezes demanda algo que chame a nossa atenção. Seja um ator famoso, uma atriz renomada, um diretor que apreciamos ou um super-herói que gostamos. Essa “seleção” que molda nossas escolhas pode acabar nos privando de conhecer obras pouco faladas, e muita coisa boa se perde pelo caminho. Quem assiste séries de TV sabe o quanto exige tempo e dedicação. Por isso é tão difícil apostar em algo totalmente novo. Porém, é arriscando que a gente descobre que existe um mundo vasto além dos “famosinhos” da Netflix. Chegamos então a The Handmaid’s Tale.

Tendo base em um livro de mesmo nome — publicado originalmente em 1985 e no Brasil chamado de “O Conto da Aia” — a série se passa em um futuro(?) distópico, na qual os Estados Unidos passam a ser governados por um regime teocrático totalitarista, a “República de Gilead”. A história é contada pelo ponto de vista de Offred (Of Fred ou “De Fred”, fazendo referência a seu comandante) interpretada pela ótima Elisabeth Moss. Devido a uma epidemia de infertilidade, as mulheres que ainda podem conceber são condenadas a viver como Aias, e, tratadas como objetos, passam a ser propriedade de quem está no poder. Elas são obrigadas a abandonar seu passado — daí a mudança de nome — e se tornam escravas sexuais, tendo que participar de um ritual denominado “A Cerimônia”, com o intuito de gerar filhos para famílias as quais pertencem. Por mais impactante que seja, nada é gratuito na série, e todos os episódios desenvolvem a história de forma bastante balanceada. Destaque também para os atores, que estão no tom certo, passando com precisão a angústia dos personagens.

Por mais que seja uma obra de ficção, é quase impossível não fazer paralelos com o mundo em que vivemos. Discursos de ódio e ideologias radicais estão, e sempre estiveram presentes na nossa sociedade. A série consegue ser sutil ao mostrar através de flashbacks, como aquela ideia foi se desenvolvendo aos poucos, até chegar no presente que conhecemos. É assustador e cruel, mas sem deixar de ser crível. Outro aspecto que se mostra impecável aqui, é a fotografia. As cores falam por si. O vermelho usado pelas aias, representando a violência e a dor. O azul, sempre visto nas esposas dos comandantes, indica a frieza das suas atitudes. Tem ainda o preto, utilizado pelos comandantes e pelas “Tias” —líderes religiosas — que sinaliza o respeito imposto por eles. Além das cores, a iluminação também é parte importantíssima na série. Em diversos planos vemos os personagens em lugares fechados, e fortes feixes de luz que invadem as janelas indicam a prisão interna e sombria em que se encontram aquelas pessoas. Como se qualquer saída fosse a luz que eles precisassem para encontrar paz e conforto.

Talvez a melhor estreia do ano até aqui, The Handmaid’s Tale é uma série pesada, sem medo de mostrar com graus de realismo, uma sociedade entregue a um cenário perturbador. Por mais delicados que sejam os temas abordados, a obra é corajosa e se faz necessária nos dias de hoje. Intolerância gera violência. Fechar os olhos ou tapar os ouvidos para certas ideias pode trazer consequências. Se nada for feito a tempo, talvez um dia seja tarde demais. E isso é assustador.

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