Infinity Class: A palestra sobre Hip Hop de Marcello Gugu

Marcello Gugu — Foto: Marcílio Gabriel

“Eu sou o Hip Hop, o piso xadrez! O Popping, o Locking e minha esperança são vocês.” — Assim emana a letra de ‘Gil Scott Heron’, a introdução em forma de spoken word poetry do álbum Até Que Enfin Gugu. E o Hip Hop em sua essência é tratado com frequência e excelência pelo MC do tradicionalíssimo bairro do Ipiranga — zona sul de SP — Marcello Gugu. Seja em suas letras, sua poesia, suas batidas, atitudes… Gugu é Hip Hop até umas horas e a palestra Infinity Class é um dos poucos projetos vivos que ainda perpetuam o conhecimento, que ainda sim é um dos ritos para se praticar Hip Hop, viver sua história e sentir sua mágica. Troquei uma ideia com o Marcello sobre essa atividade e o poder da Cultura Hip Hop. Tá preparado para o que vem a seguir? Então vamos lá!

— Como surgiu a ideia de realizar um projeto como o Infinity Class? No que consiste essa palestra sobre a História do Hip Hop?

Precisamos entender da onde viemos, para definirmos para onde vamos. Saber das nossas raízes é entender que até o galho mais distante é alimentado por elas. A falta de registros significa apagamento histórico, perda de memória e o esquecimento de nós mesmos. Toda arte nasce da necessidade de se expressar e necessita de uma consciência para existir. O infinity é a resposta de alguns dos por quês e nasceu para contextualizar o nascimento do movimento Hip Hop, buscando trazer a tona os gatilhos que motivaram a configuração da parte artística através de uma aula de história. A aula mostra, através de um recorte da formação da história norte americana, como dezenas de movimentos se convergiram para se tornar uma coisa só, dado o contexto politico, social e cultural da época, se tornado um movimento de grande representatividade para, e das comunidades negras e latinas. Do momento em que Colombo encontra a América até mais ou menos os dias atuais, o infinity aborda dezenas de pontos que foram cruciais para que o Hip Hop se configurasse como o conhecemos hoje e é necessário transmitir essa história pois mostra que nossa cultura é resultado de uma equação muito maior do que se imagina. O nome vem em homenagem às aulas que eram ministradas dentro da Zulu Nation, Ong criada por Afrika Bambatta, um dos djs pioneiros e pilares de nossa cultura e eu o mantive em homenagem para criar um elo de ligação, mostrando que, mesmo movimentos dentro do Hip Hop são cíclicos, eles, de geração em geração, repetem os arquétipos ao mesmo tempo em que se atualizam, o que faz com que a linguagem do Hip Hop seja sempre a mesma, mas ao mesmo tempo se modifique, sempre se modernizando, garantindo a longevidade do movimento. Diz Eduardo Galeano que ‘até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador’. O Hip Hop é a historia dos leões. A ideia da palestra surgiu a partir de um convite feito pelo professor Fábio Abdul do colégio Miguel de Cervantes, localizado na região do Morumbi em São Paulo. Ele tem um projeto dentro da escola chamado ‘De repente ao rap’, que busca relacionar a linguagem do rap e a história da produção literária no Brasil. Esse projeto tem como objetivo oferecer aos alunos uma nova perspectiva no que diz respeito a diferentes manifestações artísticas da cultura popular, e eu entrei nessa quando ele precisava de alguém pra falar sobre Hip hop. Faz cerca de 7 anos que ministro as palestras em diferentes lugares que vão, desde escolas e faculdades, até a formação de professores e a Fundação Casa, mostrando que o Hip Hop consegue, independente do lugar, adaptar a linguagem, conversar e sensibilizar as pessoas de diferentes classes sociais, raça e etc…

— Quais à semelhanças ou identificações com as atividades propagadas pela Zulu Nation nas décadas de 70/80?

Quando falamos nas Infinity Lessons, as aulas ministradas pela Zulu na década de 70/80 temos a impressão de falarmos de um período sócio politico e econômico diferente do atual. Falamos de um outro cenário, de um outro país, de uma outra realidade, porém, conseguimos encontrar pontos em comum, principalmente quando lidamos com lugares de extrema carência e prisões/fundação casa/orfanatos. Assim como tantas outras coisas, infelizmente a pobreza também é globalizada. Conseguimos, em plenos 201(..) termos quadros muito parecidos com os da década de 80 no quesito falta de estrutura, psicológica e material, falta de perspectiva de futuro, genocídio e encarceramento em massa da juventude negra, altos indicies de violência dentro das comunidades, ou seja, uma realidade muito parecida com o que existia alguns anos antes do Hip Hop aparecer no Bronx, e é ai que o Infinity pode fazer sentido e diferença. A ideia da aula é usar o Hip Hop como agente de transformação e nada impede dele se adaptar ao meio para ter êxito. Uma aula dentro do Miguel de Cervantes não é, necessariamente igual, a uma aula dentro da CASA Turiassú, unidade da Fundação Casa, pois, as necessidades são outras, a estrutura é outra, a linguagem é outra e o Hip Hop por entender isso consegue, se adaptar para atingir essas duas realidades de forma impactante, buscando despertar sentimentos diferentes e necessários para ambos os lados. Talvez a maior identificação seja o espirito de propagar não só o conhecimento, mas incutir sentimentos de auto estima, de emponderamento, de orgulho, de liberdade. Arte é, sem duvida nenhuma, um caminho para libertação e muitas vezes, se expressar é uma válvula de escape que pode definir muita coisa em uma vida. Acredito que, de acordo com os tempos, o Infinity cumpre o papel e segue mantendo a tradição das aulas de Bambatta, pois, ao se adaptar ao meio, podemos sair da aula convencional para falarmos de outros assuntos afinal, o Hip Hop engloba todo âmbito da vida e utiliza da arte para contextualizar um tempo, um momento, uma geração, então, por que não adaptar os discursos e permitir com que, quem quer que esteja na aula, vivencie a experiencia de ser Hip Hop, nem que seja por um momento. Em todos esses quase 7 anos fazendo Infinitys por ai, pude perceber algo em comum: O Hip Hop é uma cultura que transforma e, independente do tempo que vc ficou exposta a ela, um dia ou uma vida, você já não é mais o mesmo.

“A ideia da aula é usar o Hip Hop como agente de transformação e nada impede dele se adaptar ao meio para ter êxito.”

— Em sua essência, o Hip Hop tem 4 elementos como base inicial. Desde então são considerados como o pilar da cultura, mas muito se fala em um quinto elemento representado por várias atividades e o mais presente nessa questão é o Conhecimento. Por esse espírito de coletividade e troca de ensinamentos que formou o Hip Hop há mais de 40 anos, o Conhecimento por ser considerado como esse quinto elemento que nunca teve o que podemos chamar de representante?

Eu acredito que a energia do Hip hop existe no planeta Terra desde quando o ser humano se descobriu humano, veja bem: quando pensamos em mcs, djs, o grafiteirxs, e b.boys/b.girls pensamos em manifestações de consciências na forma de arte. Se pensarmos seguindo uma linha de racíocinio afim de buscar a essência humana dessas manifestações, não podemos pensar que o mc de hoje pode ser comparado a um líder tribal africano de séculos atrás que, através da oralidade, era quem passava conhecimento aos demais da tribo? O Dj não pode ser comparado a um tocador de Djambee ou atabaque criando musica para as pessoas dançarem, assim como B.Boys e B.Girls o fazem atualmente? O grafiteiro(a) não é um artista plástico a deixar suas marcas, afim de registrar um nome, um comportamento, um período, um pensamento, numa busca semelhante as das pinturas rupestres? Acredito que o conhecimento está intrínseco em tudo e que a troca significa a manutenção da existência humana. No seu interior, o ser humano sabe, desde a descoberta do fogo, que precisaria ensinar o que tinha aprendido para seus próximos pois isso garantiria sobrevivência da espécie. É tribal. É quase que um saber ancestral. E o Hip Hop, de forma consciente ou não, reflete isso. Eu não colocaria o conhecimento como quinto elemento, pois acredito que ele está em tudo relacionado ao que vamos fazer, inclusive na tentativa e erro, até por que conhecimentos se modificam com o passar dos tempos, mas se tivesse que colocar ele em alguma classificação do tipo, colocaria como elemento zero, o ponto primordial, o início, a célula. Acredito que entender que o conhecimento faz parte de cada ponto da nossa cultura mostra que sabemos que não chegamos até aqui do nada e respeitar esse conhecimento ancestral é demonstrar que aprendemos com os que vieram antes, e que temos um compromisso de transmitir o que sabemos para garantir a existência do nosso movimento, com os que vem depois. O Hip Hop é um ciclo e essa roda só gira por que o conhecimento é passado adiante, através de uma aula, de uma conversa, de um vídeo, de uma letra, e é o que mantém o Hip Hop como um movimento em constante transformação. A modificação de conceitos, o surgimento de novos conceitos, as várias formas de saberes e de ensinamentos, tudo se altera e o o segredo da imortalidade do Hip Hop é adaptação e transmissão de novos conhecimentos. Por pensar dessa forma, não coloco ele como quinto, mas como a base, necessária e fundamental para existir todo o resto.

Marcello Gugu pelas ruas do bairro do Ipiranga, Zona Sul de São Paulo — Foto: Marcílio Gabriel

- Você já apresentou e desenvolveu o Infinity Class em diversas áreas educacionais, em escolas, casas de culturas, feiras, seminários, instituições, colégios particulares e em Unidades da Fundação Casa. O que te motiva a realizar um trabalho como esse?

Tenho uma divida de gratidão eterna ao Hip hop. Desde o momento em que comecei a me interessar pelo Rap minha vida foi sendo transformada positivamente. Com o tempo fui entendendo que Hip Hop é algo maior que um movimento, e sim a denominação de uma energia que, através da arte, permite uma transformação social, e a partir disso, auxilia seus integrantes a direcionar suas vidas, dando diferentes visões do mundo, formas de enxergar e se enxergar dentro de uma sociedade, entendimento e conhecimento principalmente. Acho muito bonita a forma como essa cultura fomenta a busca do saber para tornar seus integrantes artística e pessoalmente melhores. Acredito que transmitir ao próximo algo que contribua para seu crescimento pessoal faz com que formamos uma rede para melhoria de uma comunidade e quanto mais gente acreditar nisso, mais força e mobilização teremos para auxiliar o próximo que se encontra em uma situação não tão esclarecida, e isso vai além de escolas,faculdades ou fundação casa, isso vai para asilos, para lugares que necessitam de pessoas que tragam essa energia transformadora, na qual, eu acredito que o Hip Hop é e que todos que fazem parte dessa cultura tem. Além disso, o Infinity surge também, para suprir uma necessidade, a de contar uma história que não estava sendo dita para as novas gerações, deixando uma lacuna para N interpretações e colocações. Devemos, como membros do Hip Hop, passar o conhecimento a frente para que a geração futura saiba da onde veio, que é, como começou e quem começou. Jamais podemos nos esquecer dos por quês e dos motivos que fizeram o Hip Hop ser o que é. Jamais podemos nos esquecer dos nossos heróis, dos pilares, daqueles que fizeram acontecer antes de nós. O Hip Hop não é algo que existe sozinho, necessita de uma energia compartilhada em prol de um único objetivo e é uma linguagem capaz de trazer esse tipo de mudança através da arte. Partilhar essa experiência com pessoas de diferentes lugares é permitir a existência do aprendizado, e é exatamente isso que o Hip Hop propõe como uma das formas de crescimento, a troca de experiências.

— Qual o poder da Cultura Hip Hop?

Você se lembra da primeira vez que ouviu H.Aço do DMN? ou quando viu o Racionais pela primeira vez? Você se lembra da primeira vez que um som traduziu tudo aquilo que você queria dizer mas nunca tinha conseguido? Se lembra do primeiro palco que pisou ou da primeira cypher de dança que entrou? E da primeira vez que viu um grafite ou um DJ transformar as pick ups em instrumentos musicais? Lembra? Grand Master Cazz, um DJ pioneiro do movimento, disse uma vez: O Hip Hop não inventou nada, o Hip Hop reinventou tudo. Isso inclui, além do mundo, a vida de cada uma das pessoas que resolveu fazer parte dessa cultura. As perguntas no começo da resposta, na verdade, são pontos de transformação que o Hip Hop nos proporciona. Acredito que o maior poder que essa cultura tem é a capacidade de transformação. Ela própria se modifica de tempos em tempos, e permite se renovar, se adaptar, e aprender sempre. Faça uma pergunta a você mesmo: Quando você se apaixonou pelo Hip hop? e você descobrirá, pra você, o poder dessa cultura. Vai se lembrar de momentos únicos, de coisas boas, de coisas ruins, e do aprendizado que teve. Isso é algo seu, que o Hip Hop te trouxe e ninguém jamais vai tirar de você. Agora, se você ainda não se apaixonou, não tenha pressa, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer. O segredo dessa relação é saber que paixão é combustão e amor é combustível. Não é uma corrida de cem metros, é uma maratona, mas isso, só o tempo ensina.

“Faça uma pergunta a você mesmo: Quando você se apaixonou pelo Hip hop? e você descobrirá, pra você, o poder dessa cultura.”

No próximo sábado, dia 28/10, Marcello Gugu apresenta a palestra Infinty Class em São Paulo, em um evento organizado pelo Programa Freestyle. Para mais informações clique aqui e saiba como participar.

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