DES AMPARO

Todo dia é a mesma coisa.
Desastrado, derruba o celular no chão e levanta da cama só de cueca para ir até o banheiro tomar banho. Preguiçosa, abro apenas um olho e acompanho seus movimentos até a porta se fechar. Só então mudo de posição e volto a dormir.
Quando acordo novamente você já está na cozinha preparando a comida. Sinto daqui o cheiro. Previsível, faz sempre o mesmo para mim. Então me levanto devagar e estico todo meu pequeno corpo enquanto ando. Chego na cozinha, passo por trás da mesa, trocamos olhares e você sorri. Minha comida já está no prato. Estou com muita fome. Como com gosto. Quando tiro os olhos do prato percebo que você não está mais ali. Posso ouví-lo em algum lugar da casa se arrumando e fazendo barulho. Nessa hora nunca tem tempo para conversar comigo.
Então você surge da porta do quarto, todo arrumado, passa por mim, pega a mochila e abre a porta. Antes de sair ainda tem tempo de me olhar mais uma vez, voltar e dar um beijo na minha cabeça.
Depois tudo fica mais cinza no meu dia.
Não paro de olhar a porta. Solitária. Ansiosa. Imagino onde foi e com quem está. Será que vai voltar? Fico perdida. Não sei se volto a dormir. Durmo. Não sei se assisto a TV que está ligada. Não assisto. Vou até a sacada e olho para a rua. Será que demora hoje? Enquanto penso isso o sol me aquece e a preguiça toma conta do meu corpo. Quero deitar aqui mesmo. Não deito. Algumas horas se passaram desde que você foi embora. Parece uma eternidade. Quero apenas ficar deitada. Dormindo. Acordando. Lembro do tempo que estivemos juntos. Imagino o momento em que você passará pela porta novamente. Sono.
Novamente.
Novamente.
Novam…
O frio agora me desperta. Já não tem mais sol. Percebo as luzes acesas lá fora na rua, nos faróis dos carros, nas janelas das casas. Por quanto tempo será que dormi? Não sei. Você nunca chegou tão tarde. Algo aconteceu? Será que vai voltar? Ando pela casa sem destino. Percebo uma luz pela fresta da porta. Fico perto dela e espero. Não, não é você. É apenas vizinho no corredor.
Vou até a sacada. Você nunca demorou tanto. Fico preocupada. Sinto sua falta. Olho a rua. Nenhum sinal da sua presença.
Volto para a cama. Decido te esperar ali, indiferente, como se não tivesse sentido sua falta o dia inteiro. Não quero que saiba que sem você fico sem chão, que não consigo fazer outra coisa além de dormir, que você é o que me faz feliz.
Mal acabo de me ajeitar na cama quando ouço o barulho do elevador. Meu coração dispara. Pode ser qualquer um. Pode ser outro vizinho. Mas sei que é você. Sinto que é você. Me traio. Corro até a porta. Fico olhando para ela. Grito seu nome. Ouço o barulho da fechadura. É você. Só pode ser você. Não consigo conter meu coração no peito. Ele bate como nunca bateu antes. A porta se abre. Pulo nas suas pernas e não consigo parar de abanar meu rabinho de tanta felicidade.
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