Há vida na sobriedade

I

Naquele dia, a porta não gemeu no horário de costume. Ainda eram três e meia da tarde, quando o tilintar de chaves na porta da frente da casa chamou a atenção dele. Tentou se levantar, caiu. Se apoiou no móvel de centro da sala e caiu uma segunda vez, quebrando o tampo de vidro e cortando a palma da mão direita. Resmungou algo incompreensível por entre os dentes e conseguiu ficar de pé, a mão acima da cabeça não sabia o porquê, o sangue escorrendo em fios finos pelo antebraço. Ela entrou na sala um pouco assustada com o barulho de vidro estilhaçado, o viu em pé a poucos passos, descalço, camisa branca de botão aberta com as mangas desajeitadamente dobradas até os cotovelos, cueca samba-canção azul como de costume, as pernas um pouco abertas para se equilibrar, o braço direito escorrendo sangue acima da cabeça, o braço esquerdo coçando o pescoço e uma cara de surpresa.
Ela chegara mais cedo. Ele bebera de novo.

II

Há exatamente um mês decidira parar de beber. O relacionamento não era ruim, mas a bebida fazia com que não fosse melhor. No começo era legal, animava, libertava-os de certo modo, era engraçado, eles riam e choravam e se abraçavam e se amavam. Às vezes discutiam. Mas sempre se amavam. Ela melhorou seu desempenho no trabalho, a concentração aumentou, o cansaço diminuiu. Ela redescobriu que há vida na sobriedade. Ele não. Para ele, ser sóbrio era ser chato. Ele não era ele quando sóbrio. Na verdade, ela não sabia como ele era realmente. Em um segundo repassou sua vida a dois e percebeu que sempre foi uma vida a um: ela às vezes sóbria; ele às vezes menos bêbado. E percebeu que nesse mês, o qual passou sem beber uma gota sequer de álcool, o relacionamento não era bom. Era como se a bebida os fizesse entrar no mesmo tom, os deixasse em sintonia, embora fosse uma sintonia embriagada. As discussões aumentaram, a insatisfação nasceu, mas ainda assim, e incompreensivelmente, o amor não diminuiu. Ele não era uma má pessoa. Apenas desistira de si próprio. Já tentara outras vezes, mas conscientemente decidira não parar. Ela aceitara. Por pena, talvez, no início. Por amor, com certeza, depois. No segundo seguinte, tomou a decisão mais difícil de sua vida. Não por raiva, nem por pena, muito menos por fraqueza. Por amor. Amor próprio.

III

Decidiu ser rápida e direta. Soltou a bolsa no chão, entrou no quarto, pegou a mala, colocou algumas roupas, sapatos e pertences pessoais dentro, voltou para a sala, colocou a mala e a bolsa em frente à porta, ainda aberta, virou-se e o encarou, o rosto envolvido por lágrimas. Ele ainda estava na mesma posição, mas boquiaberto, sem compreender coisa alguma. Ela o abraçou e o beijou na testa. Ele a envolveu com seus braços e manchou sua roupa de sangue. Pediu desculpas, disse que ia mudar, que a amava. Mais lágrimas escorriam pelo rosto dela, que agora soluçava. Ele encostou seu rosto no dela, beijando-a na bochecha. Repetiu que a amava, que precisava dela. Ela se afastou, tirando com carinho os braços que a envolviam. Segurou o rosto dele com ambas as mãos e olhou-o firmemente nos olhos, tão fundo que ele gelou. As lágrimas pararam de descer pelo tempo que foi necessário para ela dizer as palavras mais difíceis de toda a sua vida:

“Eu não consigo ficar sóbria e estar com você.”

Uma lágrima percorreu-lhe o lado direito do rosto, ele repetiu que a amava, perguntou se ela não o amava. Ela respondeu, da forma mais doce que podia, acariciando o rosto dele:

“O amor é a parte fácil. Todo o resto é que é difícil.”

As lágrimas voltaram ao rosto dela, que se virou, pegou a bolsa e a mala, e saiu fechando a porta. Na cabeça dele, nada. Na dela, apenas um pensamento: há vida na sobriedade.

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