Dia1, sábado — A vantagem de um diário é que você pode escrever cu, por exemplo.

Até porquê ninguém vai ler. E a ideia é essa. Se isto aqui cai nas mãos de alguém, eu simplesmente estou fodido. Não que tenha algo a esconder, mas sei, por experiência própria, que nada pode ser mais agressiva que a realidade crua, sem os adornos da linguagem e da omissão do incompreensível aos olhos alheios.

Na verdade eu mesmo vou ler isto aqui. Daqui 30 anos.

Outra vantagem de um diário é poder escrever os verdadeiros nomes das pessoas. Sem essa viadagem de pseudônimos. Sinto um alívio imenso em não precisar inventar avatares quando quero falar mal, ou bem, de alguém. Seja quem for. Aqui vai ser jogo limpo. Afinal, a conversa é comigo mesmo.

Erros de português (tempo verbal e repetição de palavras, principalmente). Outra coisa de que não preciso me preocupar ao escrever, de bate-pronto, de mim para mim mesmo. Seria o cúmulo do perfeccionismo e de quem não tem mais o que fazer, ou quem comer, revisar a ortografia de um texto de diário. Só por Deus. Ou melhor, nem por Ele.

Mas o bom, mesmo, de se anotar coisas num caderno, ou num journal digital como este — que eu obviamente coloquei senha pra ninguém mexer — , é que posso descrever a vida sem filtro. Quero é escrever absolutamente tudo o que penso. E se parece fácil pra você, meu eu futuro, saiba que está rindo hoje do que chorou muito no passado. O tempo tem essa coisa louca de embaçar e atenuar dores. Pena que não faça o mesmo com as rugas.

Tenho plena consciência de que isto aqui vai soar niilista. Altamente incômodo. Pensei, de verdade, em escrever com estilo bonitinho, sábio, mas meu nível de testosterona não deixa. E afinal, quem quer texto maduro escreve romance. Ainda não tenho paciência e idade pra isso.

Aqui vai ser vida real, sem maquiagem, sem trilha.

Sem souvenir da Disney.