Dia11, terça — 5 anos atrás eu comecei isto.

Hoje foi um dia de bastante ansiedade pra mim. Não é qualquer encontro que me tira do prumo. Não foi qualquer coisa me encontrar com alguém que há 5 anos quero conhecer pessoalmente.

Estava eu fazendo meu jogging matinal, numa pequena-grande praça de um bairro londrino, quando me deparei com um mural. Desses de recados da comunidade, onde as pessoas colocam anúncios e outras coisas, fixando-os com alfinete. Achei aquilo muito interessante. Comecei a olhar e reparei em um papel específico, que dizia “Troco cartas de amor”, e um endereço embaixo. Peguei o papel, levando-o comigo. Mandei minha primeira carta naquele mesmo dia, recebendo uma resposta 2 dias depois: “Péssima tentativa. Horrível mesmo. Considere esta minha carta como a nossa primeira.”. Depois que li, entendi. Eu havia mandado uma carta de amor romântico, e a que recebi era uma de amor, mas com tamanha lascividade que eu nunca tinha lido em tão boa literatura. O texto era tão real, tão crível, que dava pra imaginar o ímpeto sexual em experiências marcantes de uma mulher madura, gostosa, charmosa, firme, decidida. Sempre e essencialmente sexual. Entre fazendeira e caçadora, ela era sempre a segunda.

Desde isso até hoje, trocamos mais de 250 cartas, o que dá uma média de uma por semana, mais ou menos. Nunca revelamos nossos nomes, apenas o primeiro, sendo os sobrenomes pseudônimos. Combinamos de jamais descrever nossas vidas reais, nossas rotinas, nossas aparências, nossos relacionamentos, nossas idades, nadica de nada. Sei o endereço dela e ela sabe o meu. Nunca fui lá pessoalmente e ela diz que nunca veio pra cá. Não moro em Londres, naquela época estava lá a passeio. Combinamos de nos encontrar aqui na minha cidade, hoje.

Era um café desses comuns, de rua, semi-chique, no centro da cidade. Cheguei e logo avistei algumas pessoas, mas nada dela. Havia um casal jovem, um grupo de amigos, uma senhora e um homem que parecia filho dela, uma família, e uma jovem só de, eu acho, uns 18 anos. Fitei a todos, essa última nos olhos que, pela idade, não poderia escrever textos tão complexos, exceto se fosse “gênia”. Muito improvável. Bonita e jovem, quase impossível.

Esperei 15, 20, 30 minutos. Nada. Estava desistindo, chamei o garçom. Foi quando ela me abordou.

Está esperando alguém?

Estou, mas acho que ela não virá…

Pois bem, muito prazer.

Prazer, eu sou o… Não… Você não é a…

Andrietta.

Nossa… Mas quem é aquele rapaz com a senhora?

Meu enfermeiro, mas fique tranquilo que ele não vai sentar aqui com a gente.

Era a senhora.

Ela tem 85 anos de idade.

Mais que a minha avó.