Dia19, quarta — Sempre fui bom de pressentimentos e hoje não foi diferente.

Cheguei em casa hoje às 18h. Isto aconteceu mais ou menos nessa hora.

Não sei se já escrevi sobre isso, mas moro num bairro bom, com casas bonitas, sendo a minha a única que se destaca na paisagem. Ela é simplesmente tenebrosa. Parece coisa de filme de terror. Acho que meus vizinhos pensam que é mal assombrada. Eu pensaria. Não conheço nenhum vizinho, mas tenho quase certeza de que eles me consideram um cara sinistro. Por mim, que continuem assim.

Sempre ouvi histórias sobre a violência no Brasil e nunca fui adepto à ostentação. Como se não bastasse, sou discreto por natureza e quanto estou muito extrovertido é porque trata-se de uma emulação de persona. Talvez por tudo isso eu tenha construído uma casa tão… Diferente. Por fora não é nada convidativa e a ideia é exatamente essa. Por dentro é exótica na estrutura, mas muito confortável, segundo meus amigos. Para entrar nela é preciso ir até os fundos, pegar um elevador e subir ao segundo andar. O living e todos os ambientes de convívio estão no piso superior, os hóspedes ficam no térreo e, os íntimos, podem descer até o subsolo, uma espécie de Bunker. Também não tenho carro, o que facilita ainda mais a estranheza gerada pela minha pessoa, especialmente num lugar onde todos fazem questão de polir seus egos em automóveis acima de 100 mil pratas.

Mas hoje foi um dia especial, como todo ano é (com raras exceções) quando chega o famigerado 19 deste mês.

Cheguei em casa cansadíssimo por ter tido um dia duro de trabalho, o que raramente acontece, pois não preciso mais, digamos, pensar por dinheiro. Faço por prazer mas prazer também cansa. Eu escrevo algoritmos, mas depois explico isso. O fato é que senti um cheiro diferente (sou bom com odores) caminhando para os fundos de casa. E tive uma ideia.

Como moro só, resolvi fazer um teste pra saber se eu estava afiado em intuição: ao pegar o elevador, me despi completamente e comecei a cantar “Fígaro”, bem alto. Totalmente nu.

O elevador subiu ao piso superior, as portas se abriram.

Estava uma escuridão que eu nunca antes havia reparado naquele horário. Fiquei tenso, mas esbocei um sorriso naquela penumbra. E o que eu havia pressentido, aconteceu.

As luzes se acenderam de repente. Estavam lá meus 15 melhores amigos e amigas. Andrietta e Seth também.

Parab…

Do sorriso inicial às caretas, risinhos, gargalhadas e caras de espanto foram menos de 2 segundos. Continuei pelado.

Porquê pararam de cantar? Pri, Ursulla e Mari, venham cá por favor, eu quero perguntar pra vocês uma coisa…

Eu não ia perder a oportunidade de coletar um feedback sobre o júnior. Separadamente, cada uma disse uma coisa. O que não resolveu nada, não foi conclusivo. Não que precisasse de aprovação, mas as reações iniciais dessas três foram positivas (a gente sempre quer acreditar nisso).

Mas uma coisa todo mundo aprendeu de uma vez por todas: odeio festa surpresa.