Quem sabe o que é filosofisicar?

Eu implorava por uma aula maçante. Daquelas bem teóricas, ministradas pelo mais enfadonho, monótono, previsível, acomodado e mais do mesmo professor. E tudo tendia pra isso: sala impecável, ambiente tradicional, pessoas com olhares — e posturas — de administradores, executivos. O local? Uma das mais respeitadas fundações do Brasil, especializada em tudo relacionado a negócios.

A exaustão me assolava. Vindo de um fim de semana recheado de atividades extremas em desempenho físico e mental, eu só queria receber informações e anotar coisas, nada mais. Sentei no fundão. Naquele local onde muita gente recorda, da infância, ser o mundinho dos vagabundos, fanfarrões, descoladões, que têm, ou tinham, como comportamento de sala a filosofia do Zeca Pagodinho, deixando a “vida lhes levar”. Era tudo o que eu desejava: que o conteúdo me levasse. Que, pela mais passiva osmose do Universo, aquele conhecimento de três horas e pouco pudesse me provocar alguma interação neuronal diferente, sem eu nada precisar fazer fisicamente. Não deu certo.

O professor, a quem eu não precisaria poupar o nome mas vou, chegou usando sandálias. Não sei qual era a roupa, mas foquei nas sandálias e isso me bastou.

- Não teremos uma aula normal.

- Por quê?

- Olha pros os pés dele.

Quem já fez aulas de teatro deve lembrar da técnica do esgotamento físico. Não sei se a ferramenta tem um nome, mas deve ter. A ideia é a pessoa fazer exercícios com o corpo até o cansaço total, e depois interpretar um papel difícil, em que ela tenha que sair da zona de conforto de verdade. Segundo a técnica, nessa situação a resistência mental a desafios diminui muito. A aceitação é maior, mais fácil e rápida. Há explicações cerebrais para isso, mas não vou me ater, novamente, a elas.

Não lembro exatamente como foi a aula, mas sei que gesticulamos muito, conversamos e, não tenho tanta certeza, dançamos. Só que eu não estava em meu estado natural, mas em pleno êxtase da exaustão. E minha zona de conforto penso ser, em média, um pouco mais larga que a de um executivo-padrão. Ou seja: não doeu nada. E nas aulas seguintes foi comum a gente ouvir: “Tão afim de fazer uma coisa diferente?”, “Chegou a hora da gente ficar em pé.”. A verdade é que, no final do curso, já estávamos calejados de tanto refresh em nosso mindset.

A propósito dessa parte corporal e de interação social, havia também outra situação física: o layout da sala. A organização das cadeiras sempre mudava. Nada naquele script parecia como no roteiro original. E foi ali que aprendi uma nova palavra, logo eu, que adoro neologisar: filosofisicar.

- Professora, mas que raios é isso?

- Tirar da mente, do filosófico. E colocar no físico, no fazer.

Captei a mensagem, instantaneamente. E lembrei da minha mãe: ela tinha (tem) a mania incontrolável de mudar os móveis de casa, numa periodicidade incrível. Nada, em termos de decoração e móveis, eram os mesmos por mais de seis meses. Não adiantava contratar um decorador, desses que assinam seus trabalhos, que a minha mãe reassinava tudo. Gostava de novos ares, sempre. Grande filosofisicadora, a minha mãe.

Tem muito de neuroplasticidade, de empirismo, de prototipagem, mas, essencialmente, filosofisicar tem muito de HOW DOES IT WORKS?! Afinal, quem não está cansado de teorizações, filosofias, histórias de sucesso, regras, leis, condutas e uma série de outras coisas que muito têm de pensamento, e quase nada fazimento? É como se quiséssemos, só através do software, melhorar nosso hardware. E quem disse que não seria, em muitos casos, mais fácil começar pelo hardware?

Não é de hoje que se pesquisa — e se comprova — a influência da parte física (nosso corpo e ambiente) nos tipos de estímulos cerebrais que recebemos, e como isso melhora ou piora a nossa receptividade à situações que nos surpreendem neste planeta em constante transformação. Sobre a parte corporal, há um vasto e fácil conhecimento, como o TED da Amy Cuddy (http://goo.gl/jSb1ie), que nada mais é que filosofisicar em estado puro. E seja qual for a mudança, ela necessariamente nos causa um refresh, como se a gente apertasse o F5 (para os PCs) em nosso jeito de encarar a realidade. Pois não há um ser humano que entre em um lugar, totalmente desconfigurado em relação a seu histórico, achando que se seguirá um momento como qualquer outro.

Mas é claro que, em nosso dia a dia, nem todos estão preparados para receber certos tipos de refresh. Simplesmente não estão no timing. É como ler um clássico na adolescência e, de novo, na fase adulta. A percepção é outra. Não dá pra convencer um adolescente, no auge da testosterona, a ser paciente apenas com explicações. Ele vai entender tudo, compreender pouco e aplicar nada. É por isso que filosofisicar funciona tanto.

Naturalmente não há só timing, em relação à adesão das pessoas a coisas novas (e supostamente/testadamente boas). Existe algo de índole, de atitude, de estar aberto a experimentar, ao não previsível, ao, mais profundamente falando, gostar-se como se é. E, sobre isso, vulnerabilidade, Brene Brown falou muito bem, em um TED pra lá de interessante e famoso: http://goo.gl/XeDwdw

Dizem que o primeiro passo é mais da metade do caminho. E essa coisa de iniciar algo tem um pouco de dor, depois outro pouco de gosto e, por fim, muito de saudosismo. Falando nisso, lembrei agora de uma frase que uma pessoa me disse há anos, e que não era bem assim, mas reescrevo aqui: “Quem tem medo de começar, tem medo da novidade. Quem tem medo de terminar, tem medo da saudade.”.

Se vale a tentativa? Só há um jeito de saber.