Marielle, Chico Mendes e o assombro da extrema-direita

Com mentiras e tentativa de minimizar a importância dessas figuras, a extrema-direita demonstra o incômodo com o exemplo que esses lutadores despertam

Márcio Garoni
Mar 26 · 4 min read

Em 11 de fevereiro deste ano, no programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi questionado sobre Chico Mendes, seringueiro assassinado por fazendeiros em 1988 — e que dá nome a um instituto ligado ao ministério. O fundador do grupo Endireita Brasil primeiro tentou não responder, dizendo que não conhecia um dos maiores líderes ambientalistas e sindicais do país, depois disse ter ouvido histórias de que ele “usava os seringueiros para se beneficiar, fazia uma manipulação da opinião”. Pra encerrar o assunto, falou que comentar sobre Chico Mendes era irrelevante: “Que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?”, questionou (no final do programa, que está na íntegra aqui).

Ricardo Salles, condenado por improbidade, tentou pintar como criminoso Chico Mendes, que foi assassinado a mando de fazendeiros

Em 12 de março, dia em que foram presos os acusados de assassinato de Marielle Franco, ocorrido em 2018, o chefe de Ricardo Salles, o presidente Jair Bolsonaro, questionado pelos repórteres, disse numa voz titubeante: “Espero que realmente a apuração tenha chegado de fato a esse, se é que foram eles os executores, e o mais importante, quem mandou matar”. Sem ninguém ter perguntado sobre a relação entre ele e a vereadora, acrescentou: “Eu conheci a Marielle depois que ela foi assassinada. Não conhecia ela, apesar dela ser vereadora lá com meu filho no Rio de Janeiro”, e concluiu o assunto da seguinte forma: “E também estou interessado em saber quem mandou me matar.”

É evidente o desconforto dessas autoridades da extrema-direita ao comentar execuções cometidas por pessoas que compartilham de suas ideologias. A etiqueta exigida pelo cargo público obriga que o discurso seja de reprovação aos assassinatos, mas a cegueira ideológica também exige que essas figuras não demonstrem qualquer gesto mais enfático de defesa às vítimas.

Executados num intervalo de 30 anos, distantes no tempo e no espaço, Chico Mendes e Marielle Franco não eram revolucionários, mas desafiaram injustiças e interesses de grandes criminosos, e foram assassinados por essa atuação. Também eram pouco conhecidos pela maior parte do país até morrerem, e se tornaram símbolos ainda maiores que o papel que representaram em vida. Se as execuções tinham como objetivo calar suas vozes e suas bandeiras, as lutas ambientalistas contra o latifúndio, e das mulheres negras das comunidades contra a violência policial e miliciana, foram potencializadas. É óbvio que as mortes trágicas cumpriram em parte o objetivo dos criminosos, atingiram a muitos, e representam a hipocrisia dessa falsa democracia que vivemos. Mas a resposta dada pelos movimentos sociais em ambos os casos mostram que há disposição e força para enfrentar os inimigos que eles combatiam.

As caixas de comentários da internet são uma mostra do incômodo com o tratamento dado a Marielle. Inventam histórias, distorcem, tentam matar a memória de uma vereadora que não tem qualquer mancha na biografia, e foi executada por defender a verdade e a justiça. Dizem que a mídia só fala disso, que é um crime comum, que não investigam o atentado contra Bolsonaro — como se a mídia não tivesse falado sobre esse caso, como se os investigadores do homicídio de Marielle fossem os mesmos que investigam o ataque a Bolsonaro, como se a própria Polícia Federal, burocraticamente submetida à presidência da República, não tivesse concluído preliminarmente que o autor da facada agiu sozinho.

A verdade é que a extrema-direita despreza completamente qualquer vida humana que não se encaixe nos valores que ela defende. Não pode ser negro, ou estudante, ou de esquerda, ou detento, ou morador de favela, ou LGBT, ou sindicalista… Chico Mendes defendia as vidas dos seringueiros, ameaçados por ruralistas e seus jagunços. Marielle defendia as vidas das vítimas da violência da polícia e das milícias — defendia inclusive as vidas de policiais assassinados. Defendiam a verdade, enquanto tiveram a memória violada por meio de várias mentiras. Já a extrema-direita não manifesta solidariedade à maioria das vítimas de homicídio deste país, muito pelo contrário, defende mais execuções sumárias, e a facilitação do acesso a armas. Sabem quem facilitava o acesso a armas? Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle, possivelmente o maior traficante de armas do Rio de Janeiro, e que morava no mesmo condomínio de luxo onde Bolsonaro tem dois imóveis.

Quem dera ainda tivéssemos Marielle Franco e Chico Mendes entre nós, devidamente reconhecidos em vida, como deveríamos ter vivos tantos outros lutadores do povo executados pelos poderosos. Mas para desgraça dos assassinos e dos coniventes, os exemplos de Chico e Marielle seguem vivos, incomodando e assombrando a extrema-direita, que mente, se atrapalha nas palavras, vocifera, porque sabe a potência que tem o povo quando reconhece seus verdadeiros inimigos.