Abismo entre graduação e mestrado: “mind the gap”

Na hora de orientar um aluno em época de TCC, eu me pego indicando uma leitura de um autor clássico para o orientando e, em algumas vezes, ele vira para mim e diz: “Não, esse eu não conhecia. Nunca ouvi falar”.

Esse fato me levou a tomar uma atitude. Abri os dois últimos editais de seleção para mestrado em comunicação social da UFRJ e da UERJ a fim de ver qual era a bibliografia recomendada de leitura para a prova de seleção.

Ligar uma coisa com a outra foi pelo fato de eu achar que esse egresso sairia da faculdade, teria o interesse em fazer mestrado e se deparasse com autores e indicações de leitura nunca antes visto na graduação poderia reagir assim: “Mas na minha faculdade não vi nada disso”.

Reconheço que cada programa tem sua determinada linha de pesquisa e que as faculdades, sejam públicas ou particulares, têm inclinações partidárias ou mercadológicas. Mas à parte disso, penso: eu, professor da graduação, como dou conta de apresentar os autores cobrados por uma seleção de mestrado em comunicação a um egresso dessa mesma área. Eu eu nem dou aula de Teorias, mas sei e reconheço a importância dela para se chegar a desenvolver muitos projetos de pesquisa.

O que acontece diante disso tudo? Devo eu só preparar o aluno para o mercado de trabalho? Esquecer a teoria? Indicar quem para compor a base teórica do TCC dele? Preocupar-me em atender às leituras indicadas no mestrado? Digo isso porque um boa leva de ex-alunos tem interesse no mestrado, mas aí ele chega lá e encontra algo nunca antes vistos. Como dar conta e preparar para o processo? Fazendo cursinho preparatório?

Quero desdobrar essa discussão mostrando a lista indicada pela UFRJ e pela UERJ e fazendo uma pergunta ao aluno de graduação em comunicação. Vocês conhecem quais destes autores? Os professores de vocês citam os clássicos durante as aulas? E você se interessa em descobrir sobre o pensamento destes autores? Como esse processo funciona?

É porque no meu mundo você está sendo cobrado para fazer um TCC. Chega neste estágio e não tem suporte teórico porque não lembra ou não sabe nome de nenhum autor da sua área e eu me peguei querendo dar conta de que meus orientandos chegassem com os clássicos na ponta da língua e que também soubessem o que se pede em um processo que pode ser a sequência do estudo deles. Entenderam minha aflição?

Eis a lista das leituras sugeridas dos dois editais:

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: UNB/Hucitec, 2010.

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I: Magia, técnica Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

CANEVACCI, Mássimo. Culturas eXtremas. Rio de Janeiro: DpA, 2005.

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2008

CRARY, Jonathan. Técnicas do observador. São Paulo: Contraponto, 2012.

CRARY, Jonathan. Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix. O que é filosofia?. 3ª.ed., São Paulo : editora 34, 2010.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 2013.

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. São Paulo: Ed. Unesp, 2005.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas. São Paulo: Annablume, 2008.

FOSTER, Hal. O Retorno do Real. São Paulo: Cosac & Naify, 2014.

FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos V — Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. Diferentes, desiguais e desconectados: mapas da interculturalidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.

HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

HUYSSEN, Andreas. Culturas do Passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.

MAFFESOLI, Michel. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. Rio de Janeiro: Record, 2007.

REGIS, Fátima; ORTIZ, Anderson; AFFONSO, Luiz; TIMPONI, Raquel (Orgs.). Tecnologias de Comunicação e Cognição. Porto Alegre: Sulina, 2012.

SENNET, Richard. Carne e pedra — o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008.

SODRÉ, Muniz. A Ciência do Comum: Notas para o método comunicacional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.