A VITÓRIA FOI DO MEDO E NÃO DOS EVANGÉLICOS. A ESQUERDA É MINORIA.

A esquerda pode aprender com a vitória de Crivella (PRB) ou ficar esperneando contra a suposta “burrice” dos pobres.

Não foi por acaso que o PT, em dado momento, fez uma campanha cujo lema era “sem medo de ser feliz”. O resultado final foi triste: crise econômica, escândalos de corrupção até chegar o impeachment de Dilma, mas podemos tirar algumas lições preciosas de tudo isso. Com humildade, é preciso reconhecer erros, recuperar o capital ético e a agenda pública. O discurso do “Fora Temer” ou a indignação com “os golpistas” em nada contribuem para o balanço.

O eleitorado evangélico é grande na cidade do Rio de Janeiro, especialmente, nos bairros mais empobrecidos e nas periferias. Ainda assim, nenhum analista sério poderá dizer que foram os evangélicos que elegeram Crivella prefeito do Rio com 59,4% dos votos válidos. É preciso analisar com cautela e longe das paixões comuns ao processo eleitoral. Afinal, Crivella sozinho, no primeiro turno, teve 842 mil votos e Freixo 553 mil. No segundo turno, Crivella mais que dobrou e chegou a 1,7 milhão de votos e não podemos atribuir isso somente aos evangélicos. Freixo também mais que dobrou. Alcançou 1,1 milhão de votos o que não é pouco.

A alta taxa de votos nulos e brancos, bem como das abstenções, não significam nenhuma rebelião do eleitorado com o sistema político vigente. Há que se desfazer desses encantos e dessa busca por “novos sujeitos da revolução”.

No primeiro turno, 204 mil pessoas votaram em branco (5,5%) e, pasmem!, caiu no segundo turno para quase 150 mil (4,1%). Os nulos aumentaram um pouco, mas nada excepcional. De 473 mil no primeiro turno (12,7%) para 569 mil no segundo turno (15,9%). Já o não comparecimento (as abstenções) teve leve aumento. De 1,1 milhão de pessoas no primeiro turno (24,2%) para 1,3 milhão no segundo turno (26,8%). Esses dados apenas refletem a negação das duas candidaturas postas no segundo turno carioca e, mais ainda, espelham um desencanto com os nomes que se apresentaram já no primeiro turno. O que tem isso de anormal? Nada! Qual é o recado desses eleitores? Melhorem as opções, mudem, renovem os quadros e as propostas.

No segundo turno, o crescimento do não-voto é compreensível. Além do fato de que uma passagem de ônibus é mais cara no Rio do que a multa por não votar, o eleitor moderado, de centro (podendo ser de centro-esquerda ou de centro-direita), sentiu-se órfão diante de um candidato evangélico conservador com programa privatista e apoio de Bolsonaro, Garotinho e Malafaia e, no outro lado extremo, um candidato da esquerda radical com um programa estatista e estigmatizado como “defensor de bandidos, gays, maconheiros, drogas legalizadas, black blocs e crianças com direito de fazer opção de gênero”. É interessante notar que são temas fora da alçada de um prefeito!

Estereotipado, sem apoio da maioria dos vereadores eleitos — que tem força eleitoral nos bairros e regiões — e sem conseguir alianças mais ao centro, Marcelo Freixo (PSOL) ficou emparedado. Foi fácil para a campanha de Crivella isolá-lo no campo tradicional de esquerda e nos seus redutos históricos como Lapa, Leblon, Copacabana e, no máximo, Tijuca, Méier e Engenho de Dentro. Isso tornou a vitória de Freixo impossível, pois tradicionalmente a esquerda sozinha tem 20–25% dos eleitores cariocas e não mais que isso. Se não retirarmos os votos brancos, nulos e abstenções da conta eleitoral, no segundo turno de 2016, Freixo teve 23,7%. Surpresa? Não, previsível. Sem alianças ao centro para maximizar votos, não seria possível. Escrevi isso em 04 de outubro no “E agora Freixo?”.

Se somarmos os votos Freixo, Jandira, Molon e Cyro Garcia no primeiro turno carioca, podemos dizer que a esquerda obteve 704 mil votos, em número arredondado. Isso seria 23,2% dos votos válidos (lembre-se, Freixo teve 23,7% dos votos totais no segundo turno!). Na eleição passada (2012), Freixo teve 914 mil votos. No segundo turno de 2016, Freixo foi além desses votos (da esquerda no primeiro turno de 2016 e dele em 2012), conquistou muitos eleitores que, suponho, não eram de esquerda, mas temiam uma gestão de um religioso da Igreja Universal. Mesmo assim, isso não foi suficiente para virar o jogo. Os que temiam Freixo eram mais numerosos. É nesse sentido que Freixo chegou no máximo onde uma candidatura de esquerda, “puro sangue” e sem alianças ao centro, poderia chegar. Nem mais, nem menos. Mesmo que ele só falasse em paz e amor ou imitasse o Sílvio Santos. Não dá!

A ausência de uma liderança evangélica progressista, como foi o Rev. Caio Fábio na época da AEVB, dificulta uma relação dialogal entre os partidos de esquerda e as lideranças locais oriundas da ascensão das novas igrejas pentecostais. Os evangélicos progressistas estão em minoria. A hegemonia está com Silas Malafaia, Manoel Ferreira, Marcos Feliciano entre outros conservadores que consideram, por exemplo, a moderada Marina Silva (REDE) uma liderança evangélica esquerdista (ou “melancia”, para usar o jargão deles). Os pastores Ed René Kivitz e Ricardo Godim, a galera da revista Ultimato e os defensores do Pacto de Lousanne (ou “o Evangelho social”) — penso aqui no pastor Ariovaldo Ramos — não são ouvidos pela maioria dos novos evangélicos das periferias e nem são escutados pelos partidos de esquerda. O buraco aumenta.

A esquerda, se quiser ganhar uma eleição e construir uma maioria, precisará mediar sua agenda moral (aborto, LGBT, drogas, direitos humanos etc.) com os cristãos conservadores (católicos e evangélicos), com o imaginário do brasileiro médio, buscando pontos de convergência possível. O debate precisa ser aberto e franco, sem estigmatizações. Algumas pesquisas empíricas apontam que o eleitorado popular é conservador em questões morais e de esquerda quando avalia políticas públicas. Como resolver isso com um programa progressista de governo que não gere “choque moral”? (Veja um estudo interessante de André Singer)

A conclusão é simples e tem pouca relação com possíveis erros cometidos pela campanha do PSOL carioca. A esquerda “pura”, sozinha, não ganha eleição majoritária sem fazer coalizão com os setores centristas. Por outro lado, qualquer coalizão exige redução da agenda socialista, algo frustrante para os eleitores de esquerda que temem fazer concessões, especialmente depois dos governos petistas.

Restam dois caminhos: fazer alianças e reduzir o programa — e para lembrar Betinho, “quem tem fome tem pressa!” — ou aguardar até o momento em que a maioria social esteja convencida pelo programa socialista, apostando numa estratégia de convencimento ideológico de longo prazo, enquanto isso, ficamos com Crivella e outros que virão com a mesma “pegada”.

No primeiro turno, defendi a candidatura de Alessando Molon (REDE) porque entendia que (1) Crivella iria para o segundo turno e (2) somente uma candidatura de centro-esquerda poderia derrotá-lo, algo que Freixo e Jandira (PCdoB) não podiam fazer, nem ser. O eleitorado progressista preferiu o voto útil em Freixo. Deu no que deu. O eleitor moderado, de centro, se sentiu abandonado. A direita se uniu e teve maior habilidade em convencer a maioria dos votantes que, com medo dos “comunistas” e da “volta do PT”, despejou seu voto no evangélico, pouco se importando com livros ou vídeos sobre intolerâncias do bispo Crivella.

O chamado “campo progressista” (centro-esquerda e esquerda tradicional) saiu derrotado nas eleições municipais de 2016. Talvez o PDT seja uma exceção. É preciso recolher a viola, meditar, mudar a tática e a estratégia, corrigir a comunicação e entrar no jogo novamente sem ficar culpando a bola, o juiz e o campo.

Para terminar, engana-se quem pensa que Marcelo Crivella fará o “inferno” no Rio. Muito pelo contrário. É razoável supor que o populismo evangélico conservador irá usar a gestão carioca como vitrine política para 2018. Nesse sentido, o esforço do PRB será fazer um bom governo para que tenha credibilidade nas próximas eleições. Resta saber como será este “céu”.

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