Dilma irá cair, definitivamente. Não concordo com esse impeachment à brasileira, mas a essa altura do campeonato me parece irreversível. Espasmos de fogo e violência nas ruas não mudam o conjunto da obra. Dilma — com sua fala morna e burocrática, as perguntas enfadonhas dos senadores e alguns lampejos de tensão calculada — dificilmente irá reverter o posicionamento dos 59 senadores que aprovaram o processo quando chegou no Senado. Tudo é protocolar, jogo de cena, ritual, espetáculo. Cada um já tem seu voto e a maioria já apoia a aliança PMDB-PSDB que está no poder. Bastam 54 senadores favoráveis ao impeachment e fim de jogo. Ainda há petistas sonhando com uma virada produzida por Lula nos bastidores. Será? A que preço?

Não simpatizo com a narrativa de que o impeachment é um “golpe”. O processo está dentro das regras jurídicas atuais (com as divergências interpretativas de praxe). Gostemos ou não, é a democracia que temos e se eu acreditasse em “golpe” contra Dilma Rousseff, diria então que o governo Temer é um golpe dentro do golpe (estelionato eleitoral) dado pelo marketing do PT em 2014. A traição dos traidores. Mas tudo isso seria retórica, conversa para boi dormir.

Houve “conspiração” do vice-presidente com diversos setores econômicos, midiáticos e com partidos da antiga base aliada do petismo?

Sim, houve, mas na política a “conspiração” é parte do jogo em todos os regimes , democráticos ou autoritários. Alguém acredita que não houve agitação conspiradora na queda do Collor (1992) ou na vitória da chapa Tancredo/Sarney em 1985?

Os que hoje se unem para tirar Dilma do poder eram aliados íntimos até ontem. Companheiros, parceiros, camaradas. Os adversários de hoje foram alimentados pelo petismo por muitos anos. E não é só isso. Sejamos sinceros. O petismo também conspirou com Eduardo Cunha, Renan Calheiros e outros para se manter no poder, mas falhou e, no fim das contas, abandonou Dilma. Solitária, ela chegou a pedir novas eleições, recentemente. O PT vetou. Calou-se a ex-guerrilheira e, mais uma vez, aceitou os pactos oligárquicos.

Lula sumiu da cena pública para tentar reaparecer depois como Sassá Mutema. Salvando o mandato da Dilma ou retomando a presidência em 2018. Quem ainda crê nele? Qual o tamanho do seu capital eleitoral?

Não me convenço de que somente essas “pedaladas fiscais” – assinada também por Michel Temer e adotada em diversos níveis de governo – justifiquem a tese de crime de responsabilidade e o impeachment. Considero um argumento frágil e usado por conta da gravíssima crise econômica e política que o governo petista foi incapaz de conter. Em outras palavras, sem crise econômica não haveria impeachment de Dilma Rousseff. Foi assim com FHC e Lula.

O mais justo, de acordo com a minha avaliação, seria um plebiscito onde nós brasileiros pudéssemos ter o direito de decidir nosso futuro. Poderíamos escolher uma nova eleição e, quem sabe, eleger um novo presidente até 2018. Dentro da casta de políticos profissionais, a maioria odeia nossa opinião e tem pavor de consulta, plebiscito ou referendo. Até mesmo entre aqueles que se dizem de esquerda, “amantes da soberania popular”. Balela! Eles decidem tudo em nosso nome. É assim na poliarquia contemporânea.

Dilma irá sair de vez e deixará de assombrar o governo Temer, mas isso não resolve o problema da crise (econômica , social, política). O PMDB está tendo dificuldades de apoio. Sua governabilidade dispensa a chamada “esquerda” (petistas e não-petistas), mas necessita do bloco PSDB-DEM que está cobrando alto preço. O país continuará mergulhado na incerteza e o futuro (2018) dura muito tempo. Apertemos os cintos!

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