Américo Vespúcio não enxergava a cor laranja

Marcio Melo
Nov 5 · 4 min read

Trabalhar com Desenvolvimento de Software envolve duas atividades que, constantemente, se repetem exaustivamente:

1 — Copiar algo pesquisado no Google para colar em seu código.

2 — Usar alguma matemática mística para calcular o prazo de entrega de uma tarefa. Tarot, rolar dados de RPG, pensar em valores aleatórios, vale qualquer coisa para deixar quem demandou a tarefa feliz.

E foi num desses dias que um dos maiores axiomas que existem no Mundo da Programação, escondido entre aquelas mil palavras bonitas que a Turma de TI adora inventar (geralmente in ingrish), se provou mais do que nunca imortal: Nada é simples.

A necessidade do cliente era trocar a cor do título de um relatório. Simples não é? Claro que não! Complexo, variável, imensurável. Só que, como sempre, alguém grita “isso é 5 minutos, pelo amor de jah” e você, cansado de dar murro em ponta de faca, só aceita e segue em frente. Sabendo que em 5 minutos não dá tempo nem de pegar uma nova dose de café.

— Qual cor o cliente deseja? Pergunta o inocente programador, ou melhor, Jedi Developer, Hacker Influencer, Designer Thinker do Código.

— Laranja.

— Laranja?!

— Sim, laranja, o que é que tem?! Discute não, o cliente que tá pagando.

Laranja

Já se passaram 10 minutos e sua tarefa já está atrasada. A data fantasia de entrega, como de praxe, foi pro saco. E aí você pensa: “Ok, vamos lá. É hora de botar a mão na brasa!”.

Primeira coisa que você faz? Claro, abre mais uma aba em seu navegador que lhe joga naquela deliciosa página de pesquisa. E é aí que vem em sua mente:

Laranja. É uma cor e também é uma fruta. Olha só que curioso. Se a laranja é uma cor e também uma fruta, o que será que veio primeiro? A cor laranja que deu nome a fruta de mesma cor ou fruta, que tinha a cor laranja? Como é que se pode terminar a tarefa, alterar o título do relatório sem antes descobrir esse mistério secular? Impossível.

Estupefato eu vi que, na verdade, a cor laranja ganhou esse nome em 1512. Mil quinhentos e doze, já parou pra imaginar o que estava rolando no mundo há mais de 500 anos atrás? Como tudo deveria ser? Não tem jeito, mais uma aba precisa ser aberta.

O ano é 1512 e, dentre vários acontecimentos, enquanto os índios estavam sendo massacrados no Brasil pelos Portugueses, que traziam doenças e saqueavam nossas riquezas dizendo que estavam, na verdade, fazendo um grande bem para o nosso país com a colonização, afinal, sem eles, tudo ainda seria mato por aqui, descubro que foi o ano em que Américo Vespúcio, famoso navegador italiano, morreu.

Imagine você morrer em 1512 sem saber que a cor laranja ganhou este nome devido ao pé de laranja. Sim, primeiro veio a fruta e depois veio a cor. Laranja. É justamente quando você está pensando em que loucura seria morrer sem saber que existia uma cor laranja que uma voz, mansa, chega no seu pé de ouvido:

— Cadê? Não acabou ainda?! Era só trocar uma cor, já tem mais de meia hora nisso. Pelo amor de Deus!

O tempo de entrega já foi pro caray e você começa a fechar algumas abas sem entender porque abriu metade delas. Bom ,vamos lá. Hora de entrar no site com milhares de códigos para cores e encontrar um tom de laranja decente pra não ficar tão ridículo um relatório com título laranja. Hora de abrir mais uma aba. Poderia ter ligado o velho ‘foda-se’ e colocado simplesmente “orange” ao invés de escolher um laranja menos gritante não é mesmo? Não, melhor trabalhar direito.

Bom, #FFA500. Orange. É só colar no código CSS e pronto. Mais fácil do que isso impossível. Chupa Vespúcio! Pera aí, mas e quando Américo Vespúcio estava vivo, como é que ele chamava a cor laranja? Será que ele usava em águas internacionais o inglês orange, como eu deveria ter colocado direto no código logo e evitado toda essa jornada sem fim? Simples é o caralho. Nada é simples!

Hora de abrir outra aba, aproveitar que várias foram liberadas e que o navegador continua ávido por consumir toda a memória RAM disponível. E é nessa hora que, embasbacado, você descobre que a cor laranja, que ganhou esse nome por conta da fruta de mesmo nome, enquanto seu Américo que, espero, com esse nome sabia falar inglês apesar de ser italiano e navegar por Portugal e Espanha, ainda estava vivo, se chamava na verdade YELLOW-RED. Bizarro!

E é quando você olha no relógio e pensa que finalmente é hora. Hora de pegar outra xícara de café pra ver se esse complexo código, que poucos engenheiros da NASA ou da Google seriam capazes de criar, fica pronto antes do expediente terminar.

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