Clube Português da Bahia 17, Edifício Marcelo, o grande campeão do dia, 1.

De tanto assistir a molecada do prédio em que residia desde os anos 80 jogar bola o dia todo, todo dia, um tio de um grande amigo meu teve a ideia de juntar todo mundo e montar um time de futebol, seria a seleção do Edifício Marcelo, um dos muitos prédios coloridinhos do emergente condomínio Parque Júlio César localizado no bairro da Pituba em Salvador na Bahia. Quando chegou até a mim a boa nova não hesitei em solicitar a permissão aos meus pais para participar deste projeto futebolístico que, mais a frente, se tornaria uma das melhores lembranças da minha infância.

Algumas reuniões e alguns ‘treinos’ bastaram até que o nosso manager viesse com a melhor notícia desde o dia em que resolveu montar o nosso time, um amistoso já estava marcado e enfrentaríamos a seleção do Clube Português da Bahia*, uma tradicional associação da nossa cidade que não ficava longe de onde morávamos, na verdade ficava no mesmo bairro.

O dia finalmente chegou e quando entramos no clube e vimos todos aqueles garotos com chuteiras impecáveis pretas e uniforme estilosos tivemos o nosso primeiro impacto, aquele bando de moleques de camisas azuis, cada uma em um tom, estilo e formato diferente (o dinheiro da vaquinha só deu mesmo pra comprar a bola) diante de uma agremiação de futebol ‘de verdade’, treinada e pronta para nos dizimar em campo. Quer dizer, eu achava que seria no campo e, naquele momento, minutos antes da bola rolar, descobri (não sei se os outros já sabiam) que iríamos jogar futebol de salão.

Para quem tinha treinado horas a fio nos dois campos disponíveis que tínhamos ao lado do Edifício Marcelo, um dentro do prédio de cimento que tinha uma árvore que hora servia como trave, hora funcionava como um obstáculo a mais, e o outro do lado de fora que servia ao condomínio e era de asfalto — na verdade era um estacionamento, mas colocaram umas traves e dava no mesmo — descobrir àquela altura que seria futsal a modalidade praticada era apenas mais uma novidade naquele dia tão especial e que ficou na memória de todos nós.

Quando a bola começou a rolar nem deu tempo de eu sentar no banco de reservas (só era escolhido de primeira quando levava a minha bola ou deixava alguém jogar no meu Master System, não seria agora que seria titular) e já tínhamos tomado o primeiro gol. Rolou a bola novamente, gol. Toca pro lado, gol. Porra Guilherme, chuta pra frente! Gol. Marca o camisa 7 Brunoooo!! Gol. Toooocaaaa a bola miséra! Gol.

O tio de meu amigo, nosso técnico, tentava dar algumas instruções mas ele tinha que lidar comigo e mais todos os outros que estavam de fora gritando no seu pé de ouvido: “Tio, eu também quero jogar!”.

Quando acabou o primeiro tempo o placar que não estava sendo anotado, até porque acho que não teria como marcar tantos números, já estava uns 9 ou 10 a 0 para o Clube Português. Enquanto bebíamos água para reabastecer, até mesmo aqueles que não tinham entrado ainda, afinal o sol de Salvador nunca está para brincadeira, existia um certo olhar de deboche por parte dos jogadores da equipe da casa. A gente não tava nem aí, todo mundo queria mesmo era jogar.

Quando começou o segundo tempo o imaginável, o inesperado, o milagre aconteceu. Passe de bola envolvente (mentira, demos sorte) e fizemos O GOL. Alguns anos depois, em 1994, quando Baggio isolou aquele penalty, muitos ficariam impressionados com a vibração de Galvão esganando Pelé e gritando “É teeeeeetrrraaaa!!!”, mas se tivessem visto a nossa vibração naquele sábado malemolente e ensolarado em algum dia situado no início dos anos 90, o termo vibração e euforia precisaria ser reescrito e repensado.

Gritamos, nos abraçamos feito loucos, a alegria era tanta que não cabia na gente. Não entendi o olhar perdido e sem graça que nosso treinador fazia, ele parecia estar um pouco desconfortável com tudo aquilo. Os jogadores do time da casa estavam sem entender nada, olhavam uns pros outros dando de ombros. Acho que o treinador do time da casa esboçou um sorriso e, tirando a gente, o incrível time do Edíficio Marcelo do Parque Júlio César, parecia ser ali o único a compreender a magia do futebol. A alegria contagiante e sem o mínimo de razão que brota desse esporte.

Quando o jogo terminou acredito que o placar deva ter ficado em algo próximo a 17 x 1 para o time da casa. Voltamos a pé, rindo e repetindo o lance a toda hora, tinha alguém comemorando um chute na trave e eu estava feliz por ter entrado em campo, mesmo sem ter tocado na bola nenhuma vez**, nem mesmo pra cobrar lateral (estavam com medo de eu cometer reversão). O tio de meu amigo era o único ali que não estava tão feliz e, após aquele dia que marcou a nossa estreia, nunca mais nos reuniu para treinar e tampouco marcou outros amistosos com o nosso time. O porquê de ter desistido da gente eu nunca soube.


Dizem que a história do futebol é escrita pelos campeões e naquele dia estávamos escrevendo a nossa própria história, sem dúvidas saímos campeões dali, por mais que o placar tentasse dizer o contrário.

***

*O Clube Português da Bahia faliu e foi demolido no final de 2007. Depois de um pleibiscito realizado com diversas opções foi escolhido por nós soteropolitanos que deveria ser construído ali um Oceanário. A prefeitura, depois da votação, resolveu que seria melhor construir uma praça.

**Existe a chance de não terem tocado pra mim porque, certa feita, irritado por ninguém estar tocando a bola para mim num baba (a.k.a. pelada) contra a turma do Edifício Cláudio que ficava ao lado do nosso, em fúria, comecei a pegar a bola e fazer gols contra.

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