O dia em que ‘disruptei’ o baba de domingo

Marcio Melo
Nov 4 · 3 min read

No início dos anos 90 a internet ainda não havia chegado pelas bandas de Salvador e o que movimentava a criançada era mesmo ir pra rua, bater um baba (aka pelada, futebol), andar de bike, skate ou qualquer atividade na rua.

Não é como se as crianças de antigamente fossem melhores e, incentivadas por pais super atentos e responsáveis, faziam mais atividades físicas e sociais. Isso só acontecia porque nem a Internet e nem o Plano Collor haviam surgido ainda para destruir o que se chamava de família, pelo menos naquela época. E se tinha uma coisa que rolava quase todo dia no Parque Júlio César em Salvador, especificamente ali entre os edifícios Marcelo, Cláudio e Túlio eram os confrontos entre os prédios.

Sempre joguei muito futebol e dizem que com o tempo e a dedicação necessária vem a perfeição, o aprimoramento. Bom, isso funcionava para meus colegas, mas não para mim. Sempre amei jogar bola mas eu era no máximo um cara brother que era escolhido por ser brother, ou talvez por ter um Master System. Pensando bem, devia ser por conta de Alex Kidd ou Afterburner que me escolhiam pro time.

Rolavam diversas disputas nos finais de semana, golzinho, dupla, 1 no gol e dois times, mas também rolava aquele velho clássico Marcelo x Túlio onde, geralmente, vencíamos mais quando era guerra de armas de tampinha ou aqueles dispositivos feitos com o copinho de danone e uma bola de assoprar (aka bexiga) para arremessar mamonas. Não eram assassinas mas doíam bastante quando acertavam em cheio.

A minha mediocridade não me deixava render momentos memoráveis, era tudo o mesmo de sempre. Joga mal, vai pro gol. Vai pro gol, não agarra nada. Perde novamente. Era esse o ciclo que vivia repetindo e, me pergunto agora, não sei o porquê de gostar tanto. Só que teve um dia que foi especial, principalmente para um colega conhecido, na época, como Bruno do 11. Em meio a tantos Brunos, Marcios e Guilhermes, era mais fácil identificar cada um pelo andar que morava.

A minha memória mais vívida desse momento foi de todo mundo rindo, incrédulo no que estava rolando em campo, mas Bruno do 11 não estava rindo, ele estava se contorcendo no chão, passando mal de tanto rir. Tudo isso porque resolvi quebrar paradigmas e disruptar o conceito de baba estabelecido até ali, depois de ‘pegar muito ar’ (ficar com bastante raiva) na forma como a tática em campo não estava favorecendo o futebol coletivo.

Só porque eu não jogava bem e não acertava passes ou fazia gols, os meus amigos, deliberadamente, resolveram não tocar mais a bola para mim. Eu me posicionava lindamente na banheira (não tinha VAR naqueles tempo e tampouco impedimento) totalmente livre, pronto para perder mais um lindo gol, e ninguém tocava pra mim. Fui para o meio para perder a bola e armar o contra-ataque pro edifício Túlio. Nada Também. Gritava pra um “tocaaa”. Não resolvia. Toca miséria, tô livre. Nada. Olha aqui DESGRAÇA, toca essa MISERA. Nada também.

Sem qualquer chance de diálogo e vendo meu time começar a vencer facilmente o jogo — afinal eu não estava mais atrapalhando — resolvi mudar o conceito do jogo coletivo e resolvi eu mesmo tomar a bola dos pés dos jogadores do meu próprio time. Tomava a bola de Bruno do 4 resmungando em voz alta “vai tocar não né PORRA?!” e saí em direção meta do meu time pra fazer um lindo gol. Contra. Depois desse veio mais outros e o jogo acabou sem qualquer condição de alguém querer jogar mais.

Eu fui o único que saí injuriado do baba, todos os outros jogadores continuaram rindo por muito tempo e essa é, geralmente, a primeira história que lembram quando a gente se encontra por um acaso pelas ruas de Salvador. Talvez perca apenas para o dia em que caí de um carro em movimento, mas essa história fica pra outro dia. Ou outro ano, nunca se sabe quando eu vou resolver sentar aqui novamente e escrever um texto para poucos lerem.

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Assisto filmes que ninguém conhece, mato monstros que não existem e torço por um time que nunca vence

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