Aê, Wayne!

#randomemories #1

Tim Festival 2005. Outubro, sábado à noite. Wayne Shorter Quartet no Auditório Ibirapuera. Wayne acompanhado de Danilo Perez no piano, Brian Blade na bateria e John Patitucci no contra-baixo acústico. Na platéia, eu e Zé, meu amigo que convidei de última hora.

Sinceramente, fui sem expectativas. Não li resenha alguma tampouco conhecia o álbum daquela turnê. Conheço mais o Wayne pelo seu trabalho no Weather Report do que com Miles Davis ou Art Blakey. Sua carreira solo apesar de ter ouvido uma ou outra coisa, para mim, ainda é motivo de grande curiosidade.

Um certo ar de mistério rondava o começo do show. Uma introdução longa, se não me engano, de sax soprano. Uns temas que lembravam músicas conhecidas. A banda acompanhava o líder. O pianista despejava acordes e muitas inversões como se fossem melodias. Notas longas de contra-baixo eram tocadas como que para marcar a cabeça dos compassos, enquanto que a bateria era tamborilada sem ritmo definido.

De repente, do nada, um tema é sugerido pelo sax. Foi o chamado para que aquele clima tenso de introdução fosse deixado para trás. O andamento mudou, era mais para frente. Parecia que uma cortina havia sido aberta para que um saraivada de novos temas pudessem ser ouvidos pela primeira vez. Primeira vez nesta vida. Até os músicos sentiam que estavam tocando uma peça inédita. Eles se entreolhavam com cara de cumplicidade (cara! o quê estamos fazendo).

O show transcorreu. Notava que navegavam pelo som desconhecido e sem bússola apenas seguindo na confiança do silvo do sax de seu líder . Era algo telepático. A qualquer nova sugestão de um dos quatro músicos, a reação moldava o som da banda. Por vários minutos, notei Brian Blade em transe total, interpretando o que parecia ser uma batida que vinha da alma. Danilo, a cada nota disparada pelo sax, respondia com uma nova progressão de acordes acompanhada de um movimento desengonçado meio que para se ajeitar na cadeira. Ao final de um dos temas, flagrei John Patitucci encostar a orelha no headstock do seu baixo para ter a certeza de que tocaria a nota fundamental que encerraria a música . Wayne, sempre sereno, se limitava a um pequeno sorriso de consentimento aos três.

Platéia em êxtase. Testemunhávamos algo novo, fresco, feito na hora. Todo o teatro estava conectado com aquela performance. Poucas vezes no Brasil havia presenciado uma platéia tão silenciosamente participativa e respeitosa.

No encerramento, a banda saúda a platéia que aplaudia de pé. Ainda em catarse, totalmente absorto pelo que tinha acabado de ver, fui acordado de maneira abrupta. Um figura duas filas atrás da nossa, como se estivesse na arquibancada do Pacaembú, grita linda e toscamente :
Aê, Jorge Mendonça!!!
Olhei para o Zé e meio que pensando "podes crer, o cara é igual", caímos na gargalhada.