Mais autonomia para deficientes: pontos de ônibus inteligentes
Recentemente fui para a Campus Party Brasil 9ª edição, onde havia esse Hackaton sobre pontos de ônibus mais inteligentes. O desafio era utilizar a tecnologia disponível (Raspberry + sensores + Arduino + API do CittaMobi) para criar uma solução que melhorasse a vida dos usuários dos ônibus e um prazo de apenas 4 dias.
Eu e um amigo (Jefferson) entramos nessa e resolvemos partir da ideia de tornar os pontos mais preparados para receber deficientes, nossa ideia inicialmente começou com deficientes visuais. Uma interface simples onde ele pudesse conhecer as linhas disponíveis naquele ponto e a partir daí escolher para onde ele deseja ir.
A ideia foi amadurecendo e fomos conversando com os organizadores e demais pessoas interessadas em interagir conosco, aos poucos o projeto foi tomando formato e a ideia foi sendo amadurecida. Por quê uma interface que atende apenas deficientes visuais, quando nós podemos fazer o mesmo pelos cadeirantes? Então adaptamos a ideia um pouco para suportar pedido de ônibus que possuem elevadores, isso agilizaria o processo de levar o cadeirante para ônibus e evitaria situações onde o cadeirante fica no ponto e acabar não pegando seu ônibus.
Melhorias e desenvolvimento
Como o ambiente é um ponto de ônibus (um ambiente que pode conter todos os níveis de barulho) achamos fundamental fazermos uma interação com fones de ouvido. Além disso a forma de entrada das informações (como o usuário seleciona o ônibus) ficou sendo através de botões acessíveis (com escritas em braile, que acabamos não conseguindo entregar pelo tempo apertado).
Outra melhoria que surgiu com as diversas conversas que tivemos foi a de utilizarmos o display (que eles normalmente utilizam para propagandas) para alertar os motoristas e cobradores de que naquele ponto existe um pedido de alguém que precisará de ajuda, seja com a identificação do ônibus ou com a subida, fizemos isso graças a API do CittaMobi que estava disponível como parte do Hackaton. Consumíamos a API frequentemente até verificarmos que o ônibus em questão estava se aproximando e ao faltar uma quantidade de tempo, configurável, o letreiro (display) passaria a mostrar a mensagem aos motoristas e cobradores.
Uma outra questão que surgiu é a de verificar se aquele pedido foi atendido. Inicialmente pensamos em gerar um alerta sonoro para o ponto inteiro, outra ideia seria alertar o usuário através de seu dispositivo mobile, mesmo que apenas com uma vibração, ou gerar um aviso sonoro no próprio dispositivo (por tempo, acabamos optando por essa) perguntando se aquele usuário havia sido atendido com sucesso.
Caso a resposta fosse negativa nós refazíamos o pedido para o próximo ônibus daquela mesma linha solicitada e iriamos fazer a verificação daquela linha, horário para assim mais tarde gerar dados de denúncia sobre o atendimento dos motoristas quanto aos deficientes.
Os dados que um dispositivo como esse geraria daria informações de quantos deficientes passam por dia por cada ponto de ônibus, quais são as linhas mais solicitadas por eles, como podem ser estruturada as linhas para melhor atendê-los e uma diversidade de dados.
Preço e viabilidade
A ideia é muito simples, mas acreditamos ser algo que mudaria totalmente a mobilidade urbana para deficientes visuais e físicos. Mas a melhor parte de uma ideia dessa eu ainda não mencionei aqui: preço e viabilidade.
Essa ideia foi construída por nós (apenas 2 pessoas, que sequer jamais haviam triscado em um Raspberry 2) em apenas 4 dias (tudo bem que houve revesamento para dormirmos) e estava 99% funcional, esse 1% eu desconsidero por ser apenas um protótipo.
Outra parte incrível é o preço de utilizar algo assim, considerando que vamos colocar um Raspberry 2 e alguns botões, o preço disso hoje gira em torno de R$ 460,00. Caso o letreiro não estivesse disponível podíamos enviar a mensagem de solicitação de parada diretamente para o celular do motorista, ou qualquer outro dispositivo mais simples que apenas vibraria para alerta-lo.
São apenas R$ 460,00 por ponto, fizemos as contas com a quantidade de pontos em São Paulo (cerca de 19.000 pontos) em relação à quantidade de deficientes (total: 2.069.632 pessoas das quais 1.059.927 tem grande dificuldade para enxergar, 143.426 não enxergam, 168.997 não conseguem de modo algum se mover, 697.282 tem grande dificuldade de locomoção). Fazendo os cálculos percebemos que o preço caso essas pessoas optassem em pagar por conta própria por essa solução em todos os pontos sairia em torno de R$ 4,23 para cada um.
A grande lição
Apesar de não termos nem ficado entre os três primeiros projetos selecionados como campeões do Hackaton, houveram muitas coisas que aprendi durante e depois do desafio.
O que posso destacar desse Hackaton foi que me dei conta de como podemos pensar em soluções práticas para resolver problemas reais e essas soluções podem ser muito baratas! Quando você termina você para e se da conta de que é algo tão simples e tão bacana que é até difícil de acreditar que algo assim ainda não é utilizado.
Enfim, o código está aberto e pode ser encontrado no GitHub e além disso eu realmente gostaria de levar esse projeto a frente e verificar a viabilidade de algo assim com algumas prefeituras (senão todas). Acredito que é algo que pode ser utilizado e que ajudará bastante a população pelo seu custo ser muito baixo, sua aplicabilidade altíssima e ser algo relevante para quem quer ter mais autonomia nos pontos de ônibus.