Daughter ‘Not to Disappear’

Muito aguardei pelo lançamento do novo disco dos Daughter. Depois de um concerto assombroso no NOS Alive há dois anos e de dois singles já lançados, prometiam continuar com a sua sonoridade tão típica e inconfundível que me fez apaixonar de imediato pela banda.

Porém, parece-me que este novo disco, Not to Disappear, perde a chama bastante rapidamente.

De modo algum se pode dizer que seja um mau trabalho! Estamos perante os Daughter que sempre gostámos mas que agora tentam ir um pouco mais além, ainda que seja exactamente nesses momentos que perdem a minha atenção.

Folgo em saber que preferem arriscar e seguir a sua intuição do que fazer uma cópia de sucessos do passado, mas são os ritmos e ambientes familiares em que eles mais brilham. Com “Numbers” e “Doing the Right Thing”, os dois singles já lançados o ano passado, mantém aquilo que sempre nos fez vibrar e sentir cada nota musical na pele. O mesmo podemos dizer de “New Ways” que precede as duas músicas já mencionadas e abre o disco em grande.

Infelizmente, segue-se “How” que não envergonha mas que não traz nada de novo nem de muito transcendente, principalmente depois do primeiro trio ser incrivelmente arrebatador. Pouco interesse existe em permanecer na audição até ao final da música.

Voltam a satisfazer as minhas papilas auditivas com “Mothers” e “Alone / With You”, sendo a última a evolução que se esperava ouvir de Daughter, num abraço aconchegante daquilo que é o futuro da banda mas sempre com uma lembrança agradável do passado. O mesmo podemos dizer de “To Belong”. São dois momentos únicos no disco, intercalados por um receio de saltar completamente para a próxima instância musical da banda mas também sem nunca darem um passo do sítio onde estavam.

Este receio seria compreensível se não existissem coisas como “No Care”, algo desconexo de tudo o resto e que me fez duvidar se ainda estava a ouvir o mesmo disco. Já com “Fossa” podemos dizer que começa bem mas tem um desfecho algo estranho. Entendo, mas não posso dizer que goste, arrisco até dizer que o momento em que surge no álbum, praticamente a encerrar o disco, entre algo em conflito com “Made of Stone”. Não é o momento mais memorável de Not to Disappear.

Já a voz de Elena é memorável do início ao fim! Ela própria é um instrumento fundamental que complementa na perfeição a sonoridade impactante e envolvente. Eléctrica, ensurdecedora, pujante e por vezes sombria. Tudo nos cerca e isola, durante pouco menos de 50 minutos somos apenas nós e Daughter. E mesmo existindo alguns percalços neste segundo disco, continuam a saber encantar como ninguém.


(Escrito originalmente a 15 de Janeiro de 2016)

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