Life is Strange

Falar de Life is Strange ainda me é complicado, tendo optado por experienciar aquilo que esta primeira temporada tem para oferecer assim que todos os episódios fossem lançados. Portanto, só agora, com os cinco episódios nas mãos e com tempo para os terminar, é que me dediquei totalmente às aventuras de Max e Chloe.

Não é complicado falar deste videojogo episódico por não saber o que dizer, bem pelo contrário, tenho tanto a dizer mas tão pouco que posso falar que se torna uma experiência quase tão devastadora quanto o próprio jogo em si.

Aquilo que mais facilmente se pode falar, e que não é novidade para ninguém, é sobre as capacidades da personagem principal, e foi sem dúvida um dos elementos que mais rapidamente me conquistou. Tudo o que tenha a ver com viagens no tempo e aquilo que podemos alterar com essa experiência é o suficiente para me chamarem a atenção. Obviamente que estou a reduzir ao mais básico aquilo que ela é. Ela é também uma jovem completamente normal, que regressa à sua cidade natal, Arcadia Bay, para frequentar o curso de fotografia com um dos fotógrafos, e professor, que tem como referência. Volta assim a cruzar-se com um passado recente que tem as feridas bem abertas e prontas a ser expostas. Sozinha num sítio que antes lhe trazia alegria mas agora lhe causa estranheza, só um acontecimento fora do normal a poderia forçar a sair do seu caminho e a aventurar-se por caminhos que, de outra forma, não iria percorrer.

Esse passado, agora também já alterado pelo decorrer normal do tempo, surge na forma de Chloe Price, a melhor amiga de Max até aos 14 anos, que ficou sozinha a lidar com a morte do pai assim que a nossa heroína acidental se viu obrigada a mudar-se para Seattle com os pais. Após esta ser secretamente salva por Max, elas voltam a cruzar-se e a partir daí tornam-se inseparáveis. E aqui começa a nossa aventura, assim como a dificuldade que tenho em continuar a falar de Life is Strangesem contar algo que não deva. Felizmente, caso algo corra mal, também posso voltar atrás no tempo, com o backspace.

Ora bem, se olharmos para o conjunto de episódios e para a evolução dos mesmos, notamos um crescimento exponente, tanto em ritmo, como em peso de decisões (que afectam o rumo da história) assim como nos assuntos abordados em momentos isolados. É que não só a história principal tem uma magnitude tal que nos deixa sem fôlego, como os momentos paralelos são de nos atacar com uma vicissitude tal que demoramos algum tempo até nos recompor, tempo esse que nem sempre temos à nossa disposição.

Ainda que fale em momentos isolados, todos eles acabam por estar ligados, de uma forma ou de outra, à trama principal, mas eles conseguem, e devem, viver por si mesmos. Mais importante que isso, é a veracidade com que os acontecimentos são retratados. Estamos perante personagens que apesar das circunstâncias extraordinárias, são totalmente mundanas. Jovens a frequentar a faculdade, que ainda estão a descobrir quem são como futuros adultos. Tudo isso faz parte da magia e dilemas que temos de enfrentar. Muitos até se focam em assuntos bem pertinentes nos dias de hoje, sendo um retrato bastante fiel da realidade.

A ajudar a construir esta realidade não estão personagens perfeitas, eventualmente vão cometer algum erro, nem que seja pelas decisões que nós mesmos tomamos ao longo do jogo. São personagens que aprendem com os erros, crescem, conseguimos ver as suas fragilidades e como lidam com elas. E só acreditamos nelas, como sendo pessoas reais com problemas igualmente reais, por serem interpretadas de forma tão exemplar. O carisma e personalidade que os actores conferem a cada voz é fenomenal.

À medida que avançamos e a própria história cresce, também ela ganha contornos mais sérios, acompanhando assim as personagens e tudo fazendo sentido. Até Arcadia Bay torna-se mais madura, mais viva, começamos a afeiçoar-nos a uma pacata cidade que esconde mais do que quer mostrar. E o interesse e desejo que cresce por querermos saber cada vez mais e descobrir os mistérios que a noite encobre sempre que se apodera do desfecho de cada episódio. E cada final marca de forma diferente o jogador, que fica assombrado por os efeitos que as nossas decisões vão tomando, embalado por uma banda sonora apropriada e rica.

Infelizmente, nem tudo é um mar de rosas. Não vou aqui falar de coisas que sejam factores de peso que vão alterar o facto de que este é o jogo de 2015 e é o jogo que todos nós, jogadores ou não, devem jogar, por menos uma vez! Apesar de ser um jogo cheio de alma e qualidade, há certas coisas que, nos dias de hoje, não deveriam sequer existir. Sim, os cabelos dos personagens parecem um campo de batalha para latas de laca, mas a expressividade facial e corporal é tão pouca que por vezes chega a ser difícil associar a voz ao corpo. A voz remete para alguém chateado, mas as personagens estão tão hirtos e estáticos que cria um certo conflito psicológico que custa ligeiramente a ignorar.

Este é provavelmente o único aspecto negativo que tenho a apontar a esta aventura gráfica, e tendo em conta os problemas que a DONTNOD já enfrentava desde o primeiro título, Remember Me, fizeram um trabalho exemplar! Mas como Life is Strange vive tanto da história e personagens, é um factor de peso que deveria ter sido alvo de mais atenção.

Pondo isso de lado, como tão facilmente se faz ao ver tudo o que há de bom em Life is Strange, este é sem dúvida um dos jogos mais marcantes que já me passaram pelas mãos e agora só nos resta esperar que a futura segunda temporada mantenha o que a primeira fez tão bem.


(Escrito originalmente a 27 de Dezembro de 2015)

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.