Portugal conquista a Eurovisão!

Portugal fez o impensável! Ou pelo menos, fez aquilo que muitos de nós queríamos mas tínhamos receio de realmente aceitar tal desejo. É que ganhar a Eurovisão não é para todos, e assim dita a história que as nossas participações nunca foram dignas de sequer sentir o doce cheiro da vitória, quanto mais o seu sabor. Lúcia Moniz foi quem chegou mais perto, com um sexto lugar. Isto é, até dia 13 de Maio, onde Salvador Sobral finalmente ganhou a grande final e me deixou lavado em lágrimas.

Continuo a achar que a música “Amar pelos dois” também não é digna deste festival musical, e talvez tenha sido essa mesmo a razão pela qual chamou tanto a atenção e acabou por sair a grande vitoriosa. É que a música pode ser muita coisa, e dou-lhe todo o crédito que merece, mas nunca me fez sentir qualquer tipo de emoção para com ela. É-me completamente indiferente, coisa que a música da Suzy não foi. Eu detestava-a por completo! Onde Salvador e também a sua irmã Luísa Sobral ganham é na personalidade e carisma. Ao contrário da música, e da Suzy, eu gosto realmente bastante dos dois. E isso chateia-me, que duas pessoas que têm talento e tanto gosto de ouvir falar, façam música, não só no âmbito do festival como também fora dele, que não consigo desenvolver qualquer tipo de interesse.

Fico feliz que meio mundo tenha conseguido encontrar esse interesse, porque foram eles que fizeram com que a votação do júri colocasse a música em primeiro lugar e que o voto do público mantivesse também essa posição até aos últimos momentos. E ver a cara destes dois irmãos, com a bandeira de Portugal atrás, quando ainda meio atónitos tentavam perceber como raio a votação estava a funcionar, e ver o clique quando foi confirmado que estava ganho, fez-me perder o controlo que estava a ter durante a última hora de votação. Finalmente posso dizer que sei qual é a sensação que se tem quando vimos o nosso país ganhar a Eurovisão. E envolve lágrimas e calores e mãos geladas e alguns nervos quando reparo na ousadia de algum país em não nos dar, no mínimo, 12 pontos! Também fico feliz por conseguir ir marcar presença no evento sem que me tenha de deslocar a algum país que não o nosso (resta estar atento à venda dos bilhetes e conseguir tê-los na mão será, provavelmente, uma experiência tão desgastante quanto ver a votação da Eurovisão!).

O momento em que o televoto do público é distribuído e somado ao televoto do júri e Portugal é consagrado vencedor.

Pior que a votação, só mesmo ter de ouvir o Malato comentar tudo o que se passa no ecrã, não há qualquer pausa para respirar ou dar descanso ao espectador. Os Oscars passaram a dar hipótese de ver a cerimónia sem qualquer tipo de comentário, talvez seja altura da RTP pensar em fazer o mesmo. Nada contra o apresentador, mas chega a ser de mau gosto estar a ver a apresentação dos outros países e existir sempre uma qualquer colherada lá metida a favor do Salvador. É que todos têm o seu valor e se estão na final é porque mereceram, devem ter o seu tempo de antena garantido e não completamente trucidado pela falta de bom senso dos comentadores. Porque também o Nuno Galopim estava metido ao barulho e poderia ter controlado um pouco o entusiasmo desenfreado do Malato.

E por falar em bom senso, também Salvador deveria ter tomado algum antes de abrir a boca quando foi receber o prémio. Claro que no momento poderia estar mais eufórico e não medir bem o que diz, mas reduzir todas as outras participações a pouco mais que fogo de artifício, não foi bem vindo da sua parte.

“Isto pode ser uma vitória para a música, de pessoas que fazem música que significa algo. Música não é fogo de artifício, música é sentimento. Vamos tentar mudar isso e trazer a música de volta ao que realmente importa.”

Concordo que música é sentimento, mas o que “realmente importa”? É um pouco arrogante dizer isso, como se os outros concorrentes não estivessem a cantar algo com sentimento ou por algo importante. Se bem se lembram, o ano passado ganhou uma música que ia buscar inspiração a acontecimentos que levaram a avó da artista a ser deportada mais os seus quatro filhos, tendo morrido uma delas. Este ano talvez não tenham existido músicas assim na final, mas se formos acreditar nas palavras do Malato uma das músicas favoritas de Luísa e Salvador é a da Bielorrússia, e o Salvador também mostrou o seu apoio a Espanha, e os únicos cinco pontos a que teve direito foram nossos, portanto onde está aqui o que realmente importa e o sentimento? Confesso que não entendi coisa alguma da participação da Bielorrússia, e pelo lugar em que ficou acho que também poucos perceberam, e Espanha foi simplesmente vergonhoso. Tivessem lá levado a Loreen em vez de Robin Bengtsson a representar a Suécia, e não só teriam uma música com importância como se calhar a concorrência a Portugal seria mais cerrada (acredito que mesmo assim teríamos ganho).

E já que entramos por outras participações, deixemos de lado Portugal por breves instantes e deixem-me falar das minhas favoritas. Muito se fala da música festivaleira, como se isso fosse um género que não Pop, e de como a participação de Portugal foge ao cânone festivaleiro, porque nunca jamais em tempo algum existiram participações idênticas (espero que o sarcasmo tenha sido detectável), mas curiosamente, as músicas que mais me agradaram fugiam consideravelmente ao “estilo” que os nossos comentadores, e até o público em geral, tentavam vender. Vejamos…

Lista de reprodução com todas as participações da final ordenadas por ordem de actuação.

Bulgária, que se mostrou ser a grande concorrente de Portugal, é uma das que me agradou bastante, e ao público também, e a verdade é que aquilo em nada é idêntico à de Israel, uma das que melhor representa aquilo que muitos querem dizer por “música de festival” e que demorou demasiado tempo a terminar. E se consideram a da Bulgária festivaleira, então a grande generalidade daquilo que está nos tops musicais pelo mundo fora, é festivaleiro!

A Moldava já entra por um lado mais popular e festivo (não festivaleiro, que a meu ver começa a assumir contornos negativos), ainda assim uma das que mais gostei de ver actuar. Contrasta bastante com todo o aparato cénico está a Bélgica, que não fosse a Blanche estar uma pilha de nervos sempre que actuava talvez tivesse conseguido ter mais impacto, ainda que um quarto lugar seja óptimo contradiga a minha necessidade de mais impacto.

Também a Hungria me deixou totalmente surpreso, não esperava por algo tão simples e impactante. Curiosamente, não cantada em inglês, o que vai contra a minha ideia que o melhor talvez seja cantar numa língua mais universal que todos possam entender. É certo que não entendi nada mas, nesta sim, estava lá o sentimento adjacente às palavras que ele proferia. Aquele sentimento que era preciso trazer de volta…

Já a Austrália e a Suécia sofriam ambas do mesmo mal. Gostei das duas, ambas em espectros diferentes de musicalidade, mas são demasiado formulaicas, pegaram em elementos já gastos e conhecidos, juntaram tudo, cuspiram e está feito. Sem surpresas, sem grandes desvios criativos, nada. Foram directos ao assunto e siga para o próximo ano.

Fiquei algo desiludido por ver a Arménia tão em baixo na classificação, penso que mereciam ter mais alguns votos. De certeza mais votos que a Bielorrússia ou a Áustria. O Azerbeijão e Reino Unido também tiveram o seu momento mas faltou algo mais que levasse a música mais longe. A primeira precisava de uma voz mais forte, mais arranhada até, já a segunda precisava que a música fosse a algum lado, é demasiado linear.

E que é feito da Itália, a favorita a ganhar e que acabou ao lado a Lúcia Moniz em sexto lugar? Tem o seu quê de ironia até… Confesso que também gostei bastante da música, também cantada na língua materna, que é mais compreensível tendo em conta a familiaridade de algumas palavras. Foi divertida, simples, com uma dança que fica mais na memória que a música e que também não percebia como era a favorita a ganhar.

Tudo isto para chegar à conclusão que, tirando raros exemplos, o público não gosta de produções baratas como as de Israel, nem algo saído de 2000 como a Polónia ou Espanha, muito menos da Ucrânia que levou uma cópia ainda mais rasca que os Linkin Park, nem gostou que o Chipre tenha tentado a todo o custo enfiar-nos um refrão goela abaixo durante 3 minutos. O público quer algo com pés e cabeça, que lhes faça sentir alguma coisa, e que talvez venha de um lugar verdadeiro. Se for honesto, até poderia ter fogo de artifício, lasers, vento por todo o lado, cortinas gigantes, malabaristas, chuva e uma coreografia com 30 pessoas em palco. E tenho de concordar que a música portuguesa tinha isso, bastante honestidade.

Agora resta saber como Portugal vai lidar com a pressão de organizar o evento, já visível na conferência de imprensa póstuma à gala final. Kiev também teve alguns percalços para conseguir fazer acontecer a edição deste ano e lá aconteceu, mas o olhar de Carla Bugalho assim que recebe de imediato uma pastinha de Jon Ola Sand com várias informações para lhe dar um avanço na organização da edição de 2018 da Eurovisão não só mostra o cansaço que já todos devem sentir nesta fase da competição como lhe retira da cara todo e qualquer entusiasmo que ainda estivesse a sentir com a vitória de Salvador Sobral. Claro que estou em tom de brincadeira, é uma oportunidade fantástica para o país que vai beneficiar com todo o público que se vai deslocar até terras lusitanas. Estou confiante que vão conseguir dar conta do recado, infraestruturas para isso têm, mas que vai ser uma maratona longa, lá isso vai.