Comichão

Após anos rodeados da mais fina sociologia, descobriram que o ser humano só se organizou em sociedade porque não conseguia coçar as próprias costas.

Gravetos e pedras pontudas simplesmente não eram o suficiente. Mesmo os coçadores mais modernos (que nada mais são que uma pequena mão de plástico, sem unhas, espetada numa vareta) não desempenham a função da maneira que um par da espécie é capaz.

Tudo que separa a civilização ocidental da diluição imediata em pequenas matilhas nômades e assassinas, e logo depois em solitários e destrutivos predadores, é a superação deste desafio técnico.

Permita que o homo sapiens (sapiens) coce suas próprias costas e é o fim desta era. Do trabalho. Da opressão. Das metrópoles. Dos desentendimentos e dos entendimentos. O feliz retorno às árvores.


Incapaz de concentrar-se nas práticas meditativas por conta de uma coceira insuportável nas costas, certo indiano levou sua elasticidade ao limite. A raja-ioga se desdobrou da iluminação proveniente daquela coçada.

Esta eterna insatisfação humana, esta incompletude, este sentimento indecifrável que é perseguir o inatingível. O zênite da existência, o nirvana, mais acima do meio das costas.

Nem pela esquerda, nem pela direita. Uma governança que ninguém alcança só.

Mas não falhamos em tudo.

Pelas costas, coçamos tantas vezes com punhais nossos pares.

Coçamos as costas de todos os países banhados por todos os oceanos. Coçamos um tantinho da lua até.

O pau de selfie que, ninguém mais duvida, é o aparato desta década, coça muito bem o ego.

Mas as costas nossas seguem em comichão.

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