Selvador

Salvador é uma cidade traiçoeira. Não confie. Não venha. Se vier, tente não morar.

Você anda nar quebrada (porque quebrada aqui não tem plural, e o “s” tem uma pronúncia difícil e circunstancial), mas vai ser assaltado na porta de casa. Você acha baiano mal-educado? A gente vai te tratar bem. Você acha baiano super bacana? Vem pra cá que a gente bota no seu toba. Entendeu como é?

Você é um sujeito materialista, né? Pois um belo dia vai se flagrar discursando sobre o Dique do Tororó ter uma energia diferente. Como se fosse um filho de hippie tropicalista. Não confie.

Você detesta axé, né amigão? Vamos testar sua fé todos os dias. Até porque o Tchan voltou. E o Tchan é igual catapora. Todo mundo teve na infância. E se você não teve na infância, periga ter depois de velho que é muito pior. Os ensaios de verão estão aí, cuidado. Não venha.

Salvador fede a dejetos humanos. Todos eles. Fede muito. Mas um dia você vai abrir a janela no Rio Vermelho e vai subir um cheiro de maresia com dendê. Se fudeu. É tipo o feitiço da Vila, só que pior, porque aqui tem farofa mesmo. Não abra a janela.

Passe pela contorno uma única vez por mês e você acha que não tem mais direito de reclamar do engarrafamento na Tancredo Neves nunca mais. Se fudeu pesado, porque a contorno é uma vez por mês, e a Tancredo é duas vezes por dia. Não vá ao MAM. Não fique para o pôr do sol. Se ficar, não ouça o Jazz.

Soteropolitano vem do iorubá “mulher de malandro”. A gente apanha mas gostcha. Gostcha muitcho, o Cumpadi Washington já tinha profetizado.

Like what you read? Give Marco Antonio Cruz a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.