Da simplicidade nociva de My Hero Academia

My Hero Academia é, no momento, o menino de ouro da Shonen Jump. Sua adaptação em anime é possivelmente uma das mais bem sucedidas dos últimos anos e sua legião de fãs fieis me faz lembrar da febre de Naruto anos atrás. Mas a falta de uma análise crítica da série pode implantar raciocínios perigosos na mente do espectador despreparado.

Declaro de antemão que existem diversos aspectos da obra que me agradam muito. A maneira como diversos personagens são desenvolvidos simultaneamente, lutas ótimas, designs criativos de personagens, a lista é ampla. Contudo, a ausência de certas reflexões tornam a obra muito rasa, pelo menos quando queremos ir além do mero anime de lutinha, e são elas que quero trabalhar um pouco aqui.

My Hero academia é uma obra extremamente polarizada. Os lados de bem e mal são tão imutáveis que toda a coletividade de atores responde pela nomenclatura de herói ou vilão, sem nenhum meio termo ou subdivisões que importem. Ninguém sabe muito bem porque são quem são. É estabelecido desde o primeiro episódio que heróis são bonzinhos, tendo a voz da moral e civilidade, enquanto os vilões são a marginalidade e subversão, mas não parece existir lá uma motivação exata pra tudo isso.

O mundo do anime me lembra um comercial de margarina. O mundo é bonito e radiante, e a sociedade beira um país nórdico em termos de IDH. Não existe uma motivação real pra a existência de tantos heróis senão a existência de tantos vilões, mas não há nenhuma explicação pra essa criminalidade absurda que só aparece convenientemente em momentos específicos da história, não fazendo parte do dia a dia daquela realidade, de modo geral.

Dois lados, específicos e imutáveis.

Não quero transformar o texto em uma aula de criminologia, mas o crime é, em norma geral, produto de uma desigualdade (ou outra mazela) social. Ele não surge espontaneamente, pelo contrário. Um Japão tão ideal como aquele apresentado no mundo do Naruto verde jamais abriria espaço pra uma (aparente) explosão de criminalidade daquele tamanho. Ainda mais uma onda onde a vasta maioria dos participantes parece estar mais interessada em atuar como um kaijuu furioso destruindo o cenário ao seu redor do que, digamos, realizar um grande assalto.

E, sim, eu sei que é um shonen. Sei que muita gente pode rebater meu ponto de vista dizendo que a obra simplesmente não vai se preocupar com esses aspectos graças a seu público alvo, ao que respondo com outro mangá, este sim que executa tais aspectos com perfeição e, ao mesmo tempo, atinge o mesmo público alvo, Hunter x Hunter.

No quadrinho de Yoshiro Togashi temos também conceitos iniciais de bem e mal, vilão e mocinho, mas eles são desconstruídos e justificados ao longo da série. Quando Kurapika (pode rir) explica que almeja se tornar um Hunter para vingar seu clã o qual foi chacinado por um grupo de mercenários chamados Aranhas os quais almejavam vender os olhos escarlates de sua etnia no mercado negro, é criada uma noção clara de dicotomia moral.

Ocorre que, mais tarde na série, descobrimos que os Aranhas não são monstros amorais, e sim pessoas tão humanas quanto nós. Inclusive são protetores de sua cidade natal, um lixão miserável chamado Meteor City, casa de apátridas e refugiados que tentam criar ali uma nova vida, fugindo de seus perseguidores em seus países de origem. Os Aranhas colaboram com a segurança e bem estar do local, na medida do possível.

Kurapika, por outro lado, torna-se aficionado com a vingança, abandonando todo o resto numa busca insaciável pelos olhos de seu povo, sempre dançando na fronteira da ética em suas decisões, não hesitando em praticamente nada para alcançar seu objetivo. Naturalmente, essa história tem muito mais nuances do que estes parágrafos, mas serve para ilustrar o gigantesco campo cinza que é HxH. Aqui, os próprios conceitos de bem e mal tomam um caráter elásticos, que se comportam de acordo com o ponto de vista do espectador, não uma linha estrita pré-definida.

Kurapika observa o resultado da própria busca incessante por vingança.

E é neste ponto que My Hero Academia falha gravemente. Com exceção do personagem Stain, que chega a realizar provocações questionando essa polarização da sociedade, todos os outros são tão claramente moralmente unidimensionais que o grande potencial da série mostra-se desperdiçado por não abrir espaço para esse diálogo, de que entre o bem e o mal há uma infinitude e que talvez essas duas palavras não bastem para pensarmos no mundo ao nosso redor.

Stain, o melhor personagem de naruto verde

Daí deriva o perigo que mencionei no início do texto. MHA, ao oferecer somente dois pontos de vista polares ao espectador, sendo que um deles é claramente lido como o certo, cria uma falsa noção de “nós contra eles” especialmente na mente do típico fã de anime, o qual nem sempre possuí bagagem política ou a formação mental para filtrar essa ideia de todo o resto da obra.

Nestes tempos socialmente caóticos, onde a polarização extrema vem levado até mesmo à morte de opositores e a ascensão de ideias totalitárias esse pensamento torna-se especialmente nocivo, pois forma um caráter pouco aberto ao dialogo e outros pontos de vista ao espectador. Transmite uma noção de que tudo aquilo que não se adeque aos nossos padrões é automaticamente negativo, marginal e mal. Abre espaço para um pensamento bitolado, desinteressado em conhecer uma realidade ou um ambiente mental que não o seu.

O crime não é visto como um problema enraizado de alguma forma na sociedade de MHA. Em algum momento All Migthy dá um discurso bastante tosco sobre as origens da criminalidade a qual indica que é uma escolha do homem de coração impuro. Assim se justifica a continuidade do ciclo de violência, não se busca conhecer e entender a existência do outro lado, apenas reprimi-lo. Em nenhum momento os heróis se reúnem e tentam entender o porque tantos criminosos ainda existem, mesmo naquele mundo tão confortável e ideal. E, como bem sabemos, os seguidores do Stain em grande parte não se preocupam com os ideais de seu mestre, e sim apenas em serem vilões pelo simples fato de o serem.