A linguagem e a crise

A impossibilidade de produzir sentido

http://img.estadao.com.br/resources/jpg/2/4/1459792916242.jpg

Estamos diante de uma perspectiva, paradoxalmente, aterradora e extraordinária. Para o bem e/ou para o mal, o futuro parece monstruoso, inaudito, na medida em que, ele parece superar nosso aparato de produção de sentido. A velocidade com que o futuro nos chega, com suas incessantes revoluções, impede que a luz, vinda da análise das experiências do passado, oriente nossos passos para adiante. A ideia clara de um futuro amigável está em suspensão.

Temos pela frente um mundo onde mercadorias, desde tênis, até órgãos humanos, serão fabricados em impressoras, um mundo onde a informação analisará a informação, onde a arte será produzida por mentes de silício, onde a automação dos sistemas de transporte urbano poderá por fim a era do automóvel.

O que está por vir é tão radicalmente diferente, que as categorias conceituais que nos definem, como o valor do trabalho, o significado de prover a própria subsistência a partir de uma habilidade específica, estão se dissolvendo no ar. Alcançamos a fonte de recursos materiais e escasseiam os mananciais de produção de sentidos. Não são mudanças apenas, são gigantescas rupturas, fraturas, em nosso universo conceitual.

Em termos históricos, retornamos, porém, numa escala muito maior, a situação do início do século XX. Lembremos da aceleração das descobertas científicas, como o desenvolvimento da teoria da relatividade e da mecânica quântica. Da formulação dessas teorias, até a explosão da primeira bomba atômica se passaram menos de quatro décadas. Não é possível não relacionar os surtos de destruição que assolaram o planeta durante as duas grandes guerras e as transformações pelas quais o mundo passou na primeira metade do século XX.

Os últimos 70 anos não deixaram de ser velozes na frequência das transformações. Mas de certo modo, a curva do limiar das mudanças estava alinhada a margem da expansão de nossa capacidade de produzir sentido.

Nesse momento, parece que a conexão entre os dois limiares está se desfazendo. Nossa capacidade de nomear o inusitado está perdendo ritmo, em relação a velocidade de produção do novo. A crescente complexidade, que nos trouxe das cavernas, até a conexão global via internet, está se autonomizando, descolando do controle de nossas instituições políticas, religiosas e acadêmicas. Os efeitos da tradição se perdem quando as essências estão em questão.

Acredito que as perplexidades diante do (ainda inominável) amanhã, têm sido o real combustível por trás dos surtos reacionários que tomaram conta da micropolítica das relações humanas, da polis local e da geopolítica mundial, ao longo dessa década. A articulação entre o local e o global está em sinergia com a crise. Há uma conexão entre a violência urbana, a tragédia em Aleppo, a crise dos refugiados na Europa, a tensão entre EUA, China e Rússia e a crise econômica e política, no Brasil.

Tudo está conectado.

O conluio entre o Juiz Sérgio Moro e o FBI não é mais do que uma evidência da correlação entre os eventos. A crise em torno da eleição de Donald Trump, com a suspeita de intervenção da Rússia de Vladmir Putim, ligam os interesses Geopolíticos que envolvem o Brasil e as potências multipolares que lutam pela hegemonia política, cultural e econômica no planeta. A crise moral e ética no Brasil, através do desenrolar da “Operação Lava a Jato, afeta a disponibilidade das reservas bioenergéticas do quinto maior país do mundo. Então, não é, de fato, uma crise apenas local. Especialmente quando o estresse global sobre a biodiversidade já é insustentável.

A sensação generalizada de que as elites se tornaram incapazes de formular um consenso para a manutenção da estabilidade no Brasil de Michel Temer, tem um fundamento muito concreto. Apenas não estamos conseguindo torná-lo evidente.

Quando as massas de trabalhadores estão ameaçadas de se tornarem desnecessárias para a reprodução de sua própria subsistência, é plausível que sejam abandonadas. Então, estamos vendo os poderosos se ocupando de disputas intestinas, enquanto a maioria é abandonada a própria sorte. Essa é a fonte da proliferação de teorias da conspiração que explicam como uma constelação de pequenos grupos se dedicam a realizar planos de dominação mundial.

A questão é que os poderosos não se esquecem do destino da família do Kzar Nicolau II, do enforcamento de Saddam Hussein, do linchamento de Muamar Kadafi, da execução de Mussolini, do assassinato de John Fitzgerald Kennedy, etc… A vida de mandatários pode ser bastante arriscada em períodos de revoluções e convulsões sociais. No mundo atual, com o gigantesco arsenal de armas atômicas, químicas e biológicas ninguém se sente seguro.

Nessa época de profundas incertezas, se for realmente verdade que a angústia dos ricos e poderosos pode ser similar a da maioria das pessoas no planeta, não é de se surpreender que estejamos vendo uma confusão nas relações internacionais. O desespero ante o que vem sendo chamado de a “era da pós-verdade” espelha em todas as instâncias da existência humana, uma perda da capacidade de produzir sentidos que sejam cognoscíveis.

Essa perda da possibilidade de inventar um sentido para o futuro, nos deixa com a alternativa escatológica. O apocalipse é o futuro de quem não consegue se imaginar no futuro. Não é coincidência que tudo ao nosso redor reflita diversas formas de distopia escatológica. Poucas e despercebidas produções literárias, teatrais e cinematográficas tem conseguido ousar a utopia e ainda assim serem levadas a sério pelo público.

Recentemente, “A chegada” - filme do diretor Denis Villeneuve, conseguiu a proeza de um desfecho que desconcerta nossas expectativas. Curiosamente, o final do filme não é nem utópico, nem apocalíptico. Mas descortina uma possibilidade para a qual nosso pensamento dicotômico, maniqueísta e linear, certamente ainda não está preparado.