Crime Organizado, Estado Democrático e corrupção política.

A delação premiada, considerada como instrumento de investigação para o contexto da criminalidade ampla - bem além da corrupção de colarinho branco, já está aumentando o domínio do crime organizado. O vácuo de poder político, com a queda dos últimos grandes caciques políticos do século XX, será ocupado por um novo tipo de criminalidade. A bandidagem de colarinho branco, funcionando como instância apartada da criminalidade de facções, está com os dias contados.

O que a sucederá será uma combinação da criminalidade de facção (que domina territórios e o tráfico de drogas), as milícias (outro nome para máfias) e o crime organizado institucional. Essa combinação de forças irá enfrentar o aparato policial e jurídico a partir de alianças regidas pela lógica dos acertos de contas e divisão do território. Esse tipo de articulação permite ao crime organizado um forte controle da economia e da política.

O crime organizado de periferia no Brasil já funciona na lógica de acertos de conta e estabelecimento de leis do crime desde sempre. Isso é tolerado desde que a violência não chegue até aos bairros de classe média. Pois bem, a lógica da delação premiada ameaça esse cinturão de proteção da classe média ao levar a corrupção para a esfera do controle das facções criminosas.

Finalmente o Brasil terá uma corrupção que não será tão distinta do crime organizado mafioso que já é comum em todo o mundo.

Como na narcocultura da América Latina, nas máfias norteamericana, russa e chinesa, a garantia da certeza da execução fará parte da estratégia da criminalidade para enfrentar a polícia e o judiciário.

A delação premiada perde seu apelo ao garantir apenas a redução da pena, quando os parceiros do crime contam com a certeza da execução sumária de qualquer delator.

Não será possível para nenhum partido ou governo, vencer eleições e governar sem entrar em algum tipo de acordo com o crime organizado. Como já vimos nos eventos de 2006 quando o o governo do Estado de São Paulo teve de ceder frente as exigências do PCC, para evitar o caos social.

Acima de tudo, a geopolítica, com os serviços de informação e espionagem serão as únicas autoridades realmente capazes de exercer algum controle sobre o crime organizado. Polícia e política servirão, também no Brasil, aos desígnios do controle da lei do mais forte.

A despeito de toda encenação das complexas relações internacionais, por trás do teatro da diplomacia o determinante mais potente sempre foi e ainda é a força bruta.

O verdadeiro lastro da cotação do dólar, por exemplo é a força militar dos EUA. Não importa o déficit fiscal americano, enquanto eles puderem eliminar qualquer opositor usando apenas drones, seu poder econômico não será contestado.

O FBI e a CIA introduziram a heroína nos guetos onde atuavam os Panteras Negras como forma de combater a luta social nos EUA durante os anos 60 e 70. Do mesmo modo, tanto a Alemanha Nazista, quanto os aliados usaram entorpecentes para turbinar a desempenho de suas tropas na segunda grande guerra.

A criminalidade e a violência urbana podem ser manejadas combinando estratégias de liberação e controle do crime organizado, juntamente com a espetacularização midiática da cobertura dos eventos violentos e da política.

Esses eventos passados embora não permitam o cálculo de eventos futuros são suficientes para indicar o roteiro das tendências gerais. Assim, o combate a corrupção tradicional não deve ser precedido por uma redução da criminalidade. O futuro trará novas formas, provavelmente mais violentas, de articulação entre as faces políticas do crime organizado e as ordens paralelas da criminalidade de facção com base no domínio de territórios fora do Estado Democrático.