http://sydneyreviewofbooks.com/prophet-of-gloom/

O texto que recomendo no link é um interessante contraponto a abordagem de Gray sobre a condição humana. Se o desprezo pela condição humana possa ser entendido com uma visão em que os humanos necessitam de mitos e ilusões, eu não tenho certeza. Odiar a manifestação violenta da condição humana implicaria em desprezar a própria descendência? Não sei. Mas o certo é que por mais amor que tenhamos pelos nossos filhos, isso não tem evitado que o mundo que nos foi legado, e que vamos legar, seja cada vez mais hostil a nossa própria perspectiva de sobrevivência.

Pode ser que não possamos deixar de confundir a ausência de sentido, esperança e redenção com misantropia. Mas também é verdade que é um fato relativamente banal que um pai amoroso leve seu automóvel ao limite estrutural e, ocasionalmente, encontre um fim para seu viver e sua vida, mesmo tendo a bordo toda a sua família. Que isto seja um mero acidente, já não podemos aceitar, pelo menos desde Freud.

Sem a providência divina, não podemos esperar que este mundo contenha um sentido humano. Podemos sem Deus, não ser mais relevantes que as demais formas de vida e a própria vida um fenômeno que não tem sentido para além de si mesma. Mas para muitos, na prática, a extinção pessoal e de sua descendência não deixa de ter um certo sentido de providência. Pode ser que um universo sem Deus seja plenamente espiritual.

Por alguma razão não podemos aceitar a finitude, não podemos nos reconciliar com a nossa aparente condição. Experimentamos dar muitos sentidos a existência. É recorrente que este sentido seja uma jornada para a luz. Mais precisamente, uma afundar na escuridão e emergir dela na luz intermitentemente. Talvez estejamos programados para este mito, da mesma forma que um bactéria seja capaz de buscar o açúcar e se afastar dos ácidos. De todo o modo, vejo que a crítica a Gray é uma resposta a sua coragem para duvidar da Razão e do progresso. De maneira que apostar é o que fazem os que o criticam, ao passo em que o censuram por apostar no ato de viver e ver a vida em lugar de buscar interferir ou mudar a contingência em que ela nos arremessa.