Impermanência

A soma dos pequenos esquecimentos, das memórias perdidas no abismo das sombras e dos silêncios eternos, são pequenas mortes. O conjunto das perdas nos dá a ideia precisa do que possa ser o movimento de dar-se conta de si mesmo e, lentamente, ir sendo (e deixando de ser) ao longo da vida.

Esse movimento — que dispara o conjunto das potências de afetar e ser afetado nos instantes finitos dos encontros — tem a marca paradoxal de produzir a singularidade perene e impermanente de tudo o que tendo sido. É um caminhar errante que paga o custo da existência no confinamento das dimensões contidas no espaço tempo. Tudo que é perece.

Apesar de se afirmar que a existência e a morte jamais coexistem, onde uma está a outra é ausente, o bailado entre o ser e o desaparecer é incessante e contínuo. É próprio da instituição do ser a destruição de parte de suas memórias, ou seja, do esquecimento constante das condições do ser. O que quer que nos defina em um dado momento da vida é, entre outros fatores do meio, resultado do que já foi esquecido.

Portanto, o ser consciente de si mesmo resulta da morte de fragmentos da identidade que desapareceram no esquecimento.

Se relembrados, é na forma de uma ressignificação, de uma determinada medida de readaptação da memória recuperada, aos novos determinantes do meio e as necessidades da atualização de nós mesmos.

Somos, assim, seres viventes atentos a consciência de sermos, através da soma de nossos intermitentes e pequenos suicídios provocados pela desatenção. O que escapa da atenção, tudo que foge do jogo da produção de sentido é abandonado e desaparece.

Sem a morte das experiências (de uma parte significativas das vivências passadas) a noção de si mesmo é inviável.

Qualquer metafísica da eternidade tem de nos remeter para um nível acima das dimensões do tempo e do espaço.

Mas além do tempo, que sentido pode ter a finitude?

As categorias do pensamento são cativas, segregadas e limitadas ao jogo de impermanência cíclica e irrepetível de cada instante no tempo.

A consciência é resultado de um mergulho cada vez mais intenso no domínio da sucessão dos instantes. Será que a altura, de onde a consciência pode escapar desse abismo, surgirá na intensificação desse mergulho?

A aceleração das experiências e vivências no interior dos instantes, a rapidez com que saturamos nossas horas e minutos poderá nos libertar da tirania do tempo. Ainda não temos como saber se a produção incessante de sentido poderá afetar a consciência do tempo enquanto rota da aniquilação do ser.

A morte é um fenômeno, simultaneamente, dos sentidos e do significado. Para quem não atina que existe a morte a existência não tem expressão ou significado humanamente compreensível.