O lugar do Centro Atenção Psicossocial (CAPS) na Rede de Atenção à Saúde Mental.

Não é porque tudo o que precisam, seja muito mais do que podemos fazer, que não vamos fazer tudo o que pudermos. E o que podemos fazer, é mais bem feito no território.

A diretriz ética da redução de danos, ou do enfrentamento diário das contingências e resultados não esperados da ação, tem origem na busca da melhor vida possível no mundo real e nas condições em que ele se apresenta. O que chamamos de território é portanto o cenário onde a vida acontece. Um lugar em que escola e unidade de saúde básica são partes da paisagem, tanto quanto, praças, igrejas ou locais de comércio como supermercados ou lojas.

A situação de naturalizar a condição de vida, privada da dignidade, é um caráter da realidade, ou é um elemento cambiante e mutante da cultura? O mundo em que o usuário vive, seja ou não um fator etiológico para explicar o adoecimento, é seu patrimônio pessoal. Seus vínculos afetivos e a natureza de suas relações familiares são uma construção que ele pode modificar, melhorar ou que seja um inelutável fator de dissolução e ruptura. Mas é, sempre, a vida dele.

Não é ético ocultar nossa impossibilidade ou inexistência de recursos para cuidar, atrás dos fatores relacionados ao meio. Em qualquer situação o território, onde a comunidade estabelece suas relações e seus valores, é o pontos de partida para uma clínica do cuidado.

A estratégia de cuidado no território, onde as famílias se instituem, é muito eficiente. Tão eficiente quanto é desgastante para as equipes responsáveis por cuidar e promover a saúde. O recorte de um indivíduo, rotulado e descolado de seu contexto familiar e comunitário é como isolar uma variável para a produção de evidências que refutam ou confirmam teses e teorias no interior de um laboratório.

O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) dentro ou anexado ao hospital é anacrônico como espaço e modelo de formação acadêmica. Porque em atenção psicossocial a variável não pode ser isolada de seu contexto. O custo benefício é inapropriado e inadequado. Há alguns casos que podem ser objeto de variados graus de resolutividade, de produção de alguma forma ou componente específico de uma estratégia mais ampla de cuidado. Mas são estatisticamente insignificantes.

A grande ruptura epistemológica deste início de século é com os padrões — artifícios culturais — de diferenças que separam os humanos. Esta forma abjeta de impor valor a vida humana e segmentar a dignidade, simplesmente não faz sentido. Uma marca do século XX no Brasil, foi a persistência de uma lente calibrada para focar nos detalhes da diferenças entre as pessoas e aplicar-lhes rótulos. Assim, pessoas infelizes foram tidas como bem sucedidas e pessoas felizes foram rotuladas como sendo fracassadas.

Olhando de uma distância maior tudo o que percebemos é que somos muito semelhantes. Nossas circunstancias são basicamente entrelaçadas. O sofrimento psíquico é uma constante humana que não varia segundo padrões de consumo, estéticos, posses, ou mesmo status sociais. Todas as evidências tem confirmado que as dores da alma e do corpo se combinam em arranjos de causa e efeito que não podem ser plenamente equacionados. A dinâmica de causa e efeito é clara, mas as categorias de causa e de efeito são cambiantes no decorrer do tempo. E como o ponto de partida está sempre um passo atrás, podemos ir recuando infinitamente sem estabelecer as causas primeiras. O mesmo se dá com os últimos efeitos. Tudo o que sabemos, pela evidência do perceber habitual e recorrente, é que nascemos e morremos. O que acontece entre um e o outro evento é inefável.

A escuta e o cuidado com o sofrimento, que na verdade sempre é mental, implica em colocar-se junto a quem sofre e dispersar a dor pelo reverberar de sua narrativa. Por isso cuidamos em equipe. Porque desse modo podemos adiar, ou suspender nossa dor, e dividi-las em fragmentos ao longo dos pontos da linha de cuidado.

Para uns o protocolo é a resignação: Aceitar que as múltiplas dores do outro podem ser compensadas por bons encontros. Compreender que estes encontros irão produzir sentido, mas não poderão apagar as marcas e as memórias do sofrimento. Quem sabe as marcas e as memórias, sejam presentes em todas as existências e a suprema dádiva seja a capacidade de esquecer. Mas não é possível escolher o que esquecemos. Nem evitar que o passo incerto de um, seja o guia para outros acertarem o passo.

Como trabalhadores da saúde, somos pagos para aproximarmo-nos do sofrimento, acolher a amplitude do desabafo e do lamento. Por isso apreendemos a ouvir e a encontrarmos um ponto de apoio além da dor. O ponto comum que apresenta a perspectiva de um devir mais feliz, ou onde a cura seja um zelo pela melhor forma possível de dignidade em cada momento da vida.

A sociedade atual é permeada por uma noção subjacente ou não explicitada de que de fato não há sentido na existência. Não é realmente possível continuarmos com este roteiro impregnado de niilismo. É niilismo achar que a vida pode adquirir um sentido apenas pelas diferenças sociais, culturais e econômicas que caracterizam as desigualdades sociais.

Inconfessadamente a desigualdade social, e estratificação de classes é produzida no desespero de tentar desconectar o devir sombrio da vida entendida como em oposição a morte. Isso nos toca mais profundamente no trabalho em saúde. Ao conhecermos intimamente os mecanismos da demência, da senilidade, do transtorno da ansiedade, da psicose e todas as demais comorbidades produtoras de sofrimento, dor, desconforto e angustia, sabemos os muitos riscos que nos aguardam a cada esquina da vida.

De resto, trabalho com a hipótese de que esta produção de desigualdade social fundamenta-se em nosso profundo descompasso com aceitar a vida em seus termos concretos. A metafísica nos ajuda a suportar esta condição inalienável da dor da existência que Nietzsche chamou de Amor Fati.

O mito da infelicidade e desgraça alheia tem sua melhor expressão na subjetividade do sofrimento psíquico. É seu caráter furtivo que permite um enquadramento cambiante entre fenômeno moral, neurológico e psíquico. Ao nomearmos o outro que sofre parecemos estar nos distanciando, nos isolando e nos blindando, de uma dor que nos assombra.

A falta de fé na vida, e em sua potência, é o que podemos chamar de Niilismo ocidental. Uma desconfiança a respeito do que os mitos dizem ser o sentido do mundo e da existência. Com isso a existência do louco seria infeliz e a dos sãos seria marcada por um devir de felicidade. Podemos viver com esse pressuposto apenas se nunca o examinarmos. Porque o olhar é como um sopro sobre esse castelo de cartas. Tudo vai desabar se ouvirmos o outro. A verdade fria e sombria sobre nós é o que resta evidente após o ato de ouvir a dor alheia.

Enfim, o ato de ouvir atentamente, essa é minha hipótese, dá a cada um — o que fala e o que ouve — a dimensão final de sua solidão e sofrimento. Por isso os encontros são sempre sucedidos e precedidos por apertos de mão, abraços e olhares profundos. Ou fazemos o vínculo e damos curso aos afetos, ou eles estouram em nossos peitos e vão lentamente corroendo nossa alma até que arrebentam com a vida.

A ideia de um CAPS é fundamentalmente a de dar ouvidos a vida de um determinado local da cidade. Uma ideia generosa em que as pessoas são cuidadas por profissionais especializados em acompanhar e tratar o andamento da vida.


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