Se dar-se for um sacrifício, não se entregue.

O egoísmo de privar a si e ao outro de sua entrega sincera é infinitamente melhor que a hipocrisia de dizer que a cada entrega você nega a si mesmo em benefício do outro.

O outro, qualquer outro que mobilize o seu afeto, é potente o suficiente para não precisar esmolar seu sacrifício. Esse é o fato que fundamenta a exigência do respeito. Todos temos direito ao espaço pleno de sermos.

Ninguém é miserável o suficiente para precisar de sacrifícios alheios. Todos existem e, em certo instante, de certo modo, deixarão a existência nesse mundo.

Nesse efêmero intervalo, entre o início e o fim, o andarilho e o príncipe dispõem do mesmo sol e do mesmo céu. Respiram e amam na intensidade que seus corpos lhes permitem. Não há por que temer mais a um do que ao outro e nenhum deles merece uma única dose de piedade.

Realizar a plena potência no ato de entregar-se a um afeto é um gesto completo que não pressupõe uma recompensa. Já é a própria recompensa.

Uma existência capaz de se ofertar ao ato é aquela que diz a vida um imenso sim. Sem lamentos e sem ressentimentos.

Porque a despeito do imenso barulho, da imensa ladainha sobre nossa miséria, o que importa, nas ruas e nas casas, nas cidades e nos descampados, é o que podemos fazer com o horizonte criado pelo puro desejo.